Toda a verdade sobre o Dr. Jekyll e o Sr. Hyde

Toda a verdade sobre o Dr. Jekyll e o Sr. Hyde Por Borges

O cinema não entendeu nada: para preservar o golpe de cena, o protagonista e o alter ego do romance de Stevenson deveriam ter sido interpretados por dois atores diferentes. As notas do autor a uma obra-prima copiada por Oscar Wilde.  

A última vez que vi meu Borges

A última vez que vi meu Borges Por Alberto Manguel

Ele queria ser Ulisses, mas acabou se tornando Homero. Acreditava que toda literatura é sempre uma tradução. Carregava Buenos Aires consigo, mas morreu em Genebra quarenta anos atrás. Eis o retrato do mestre feito pelo seu maior discípulo.

Apenas a solidariedade pode nos salvar de nossos traumas

Apenas a solidariedade pode nos salvar de nossos traumas Por Massimo Recalcati

O homem está sempre empenhado em recalcar o pensamento da morte; até mesmo a guerra é uma extremização dessa tentativa vã. Mas, para não ter medo, o único antídoto é um compartilhamento mais forte.

Filhos roubados

Filhos roubados Por Mariella Mehr

Sobre a perseguição oculta da Suíça ao povo ieniche

Playboy, setembro de 1962 Miles Davis: uma conversa franca com o maior iconoclasta do mundo do jazz

Playboy, setembro de 1962 Miles Davis: uma conversa franca com o ma... Por Alex Haley

«Não ligo para o que os críticos dizem sobre mim, seja bom ou ruim. O crítico mais duro que tenho sou eu mesmo... e sou vaidoso demais para tocar algo que acho ruim.»

Um instantâneo datado de 1961: Miles Davis, John Coltrane e a Nova York resplandecente do grande jazz

Um instantâneo datado de 1961: Miles Davis, John Coltrane e a Nova ... Por Marco Bardazzi

Estavam todos lá: Bob Dylan e Joan Baez, a geração Beat de Kerouac e Ginsberg, Mark Rothko e até um jovem Warhol. O Village como Florença no Renascimento. Um afresco irrepetível

Por que queremos uma política cada vez mais autoritária?

Por que queremos uma política cada vez mais autoritária? Por Vittorio Lingiardi e Tommaso Boldrini

Nos últimos anos, a confiança na democracia caiu em muitos países ocidentais, enquanto cresce a atração por líderes e soluções autoritárias. Uma possível chave de leitura vem da psicanálise: a «posição esquizo-paranoide» descrita por Melanie Klein, que simplifica o mundo entre bons e maus e torna mais sedutora a promessa de proteção dos líderes fortes.

Eu me lembro de quando fui feliz

Eu me lembro de quando fui feliz Por Antonella Lattanzi

«Doutora, escreva, escreva o que é que não vai bem aqui e do que precisaríamos». As detentas falam dos filhos e de quanto tempo levam para secar o cabelo. O rapaz que antes não gaguejava, aquele que se lembra da sua primeira mentira e da carícia áspera do pai. O dialeto, a infância, a raiva. Dentro da prisão para respirar ar de liberdade.  

Aqueles que partem e aqueles que ficam

Aqueles que partem e aqueles que ficam Por Sara Mokhavat

Era difícil imaginar que em breve eu estaria em outro país, longe dessa guerra

Nesta disputa de restituição da era nazista, o foco se volta para uma vaca desaparecida

Nesta disputa de restituição da era nazista, o foco se volta para u... Por Catherine Hickley

Uma família está lutando para reaver uma pintura que acreditava ser de Rubens. Mas um especialista afirma que é uma cópia, pois não inclui, como no original, a vaca fazendo xixi

Os novos murais em Teerã. Entre ironia e propaganda

Os novos murais em Teerã. Entre ironia e propaganda Por Siegmund Ginzberg

Os grafites que florescem em cada esquina são diferentes dos de antigamente: agradam ao regime. Parece quase que Banksy chegou ao Irã.

Os acampamentos que prometem transformar você — ou seu filho — em um Macho Alfa

Os acampamentos que prometem transformar você — ou seu filho — em u... Por Charles Bethea

No Men of War Crucible, você rasteja como um urso por rios. Na Warrior Week, você cava sua própria sepultura. No Squire Program, seu filho adolescente também pode participar

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Apostila sobre o nada Por Benjamin Ivry

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Conversa com Massimo Cacciari

Em conversa com Pedro Fonseca, registrada por Tommaso Monini, um dos mais influentes pensadores europeus analisa a crise do sistema democrático e o futuro da política.

O acerto de contas

O acerto de contas Por Mona Ali

Ormuz e o fim da hegemonia americana

Era um garoto que, como eu, amava os R.E.M. e o Nirvana

Era um garoto que, como eu, amava os R.E.M. e o Nirvana Por Nicola Lagiola

O sucesso da cultura contracorrente. O grunge que entra no ar pela MTV. O cinema independente, «Twin Peaks» e as últimas ilusões de rebelião. Cartões-postais antológicos dos anos noventa. Quando tudo parecia possível.


Comunidade judaica de Teerã resiste após bombardeio israelense dest... Por Mohammad Mohsenifar, em Teerã, e Stefanie Glinski.

Membros da sinagoga Rafi’ Nia celebraram a Pessach sob ataque aéreo horas antes de o templo ser atingido

Comunidade judaica de Teerã resiste após bombardeio israelense destruir sinagoga
23.04.2026

Comunidade judaica de Teerã resiste após bombardeio israelense destruir sinagoga Por Mohammad Mohsenifar, em Teerã, e Stefanie Glinski.

Sinagoga Rafi’ Nia danificada após ataques EUA-Israelenses. Fotografia de Fatemeh Bahrami.

 

Na noite de 6 de abril, Asef, 65 anos, e outros membros da comunidade judaica de Teerã se reuniram na sinagoga Rafi’ Nia, no centro da cidade, para celebrar a Pessach, apesar da campanha de bombardeios conduzida por Estados Unidos e Israel.

No salão pouco iluminado, com tapetes persas e cortinas verde-menta, versículos da Torá eram recitados e orações murmuradas em voz baixa. Asef, de camisa cuidadosamente por dentro da calça e uma kipá na cabeça, sentava-se entre os homens; as mulheres ficavam separadas, do outro lado. O ambiente era solene, contido.

«Não deixamos o conflito nos impedir de celebrar», disse. Segundo ele, a comunidade se esforçou para manter as tradições da Pessach mesmo em meio à guerra.

Quando voltou para casa, já era noite. As ruas estavam quase vazias.

Na manhã seguinte, ao se preparar para sair, soube que um ataque aéreo israelense havia destruído completamente a sinagoga.

O exército israelense classificou o episódio como «dano colateral» de uma operação que visava um comandante. Entre os judeus locais, a reação foi de indignação. Ninguém se feriu, embora um funcionário estivesse no escritório da sinagoga no momento do ataque.

No dia seguinte, frequentadores voltaram ao local e passaram horas vasculhando os escombros. Conseguiram resgatar alguns livros religiosos e três pergaminhos da Torá. O restante se perdeu entre tijolos e vergalhões.

 

Sinagoga Rafi’ Nia danificada após ataques EUA-Israelenses. Fotografia de Fatemeh Bahrami.

 

«Está tudo ali embaixo, inclusive parte do nosso acervo histórico», disse Homayoun Sameh, deputado e chefe da Associação Judaica do Irã, que visitou o local. «Condenamos este ataque. É um desrespeito à nossa fé. A comunidade judaica do Irã não tem boas relações com o governo sionista de Israel.»

A comunidade judaica iraniana é a maior e mais antiga do Oriente Médio fora de Israel, com cerca de 2.500 anos de história, desde o exílio de judeus sob domínio assírio e babilônico.

Autoridades iranianas recorrem há décadas a uma retórica abertamente antissemita contra Israel — o ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad chegou a chamar o extermínio de 6 milhões de judeus pelos nazistas de «mito» —, mas o governo sustenta que sua posição é dirigida ao Estado israelense, não aos judeus.

A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã expôs a posição singular dessa comunidade, que acabou também atingida por um conflito que o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirma travar em defesa dos judeus.

Até 1979, o Irã — sob o xá Mohammad Reza Pahlavi — era o principal aliado de Israel na região. Após a revolução islâmica, o aiatolá Ruhollah Khomeini rompeu relações diplomáticas. Desde então, os dois países permanecem em confronto.

«Fala-se de uma suposta era de ouro antes de 1979, quando Teerã e Tel Aviv eram próximas», disse o jornalista Antony Loewenstein, autor de The Palestine Laboratory. «Mas foi também um período em que Israel apoiou e armou o regime do xá.»

Depois da revolução, a população judaica caiu de cerca de 100 mil para entre 10 mil e 15 mil pessoas, hoje concentradas principalmente em Teerã, Isfahan e Shiraz.

«Nos primeiros anos, havia muita confusão. Muitos nos associavam ao sionismo. Propriedades foram confiscadas, e muita gente teve medo e saiu do país», disse Sameh.

Outros ficaram, como a família do rabino-chefe Younes Hamami Lalehzar, 61 anos, médico internista do hospital judaico de Teerã. Vindos de Yazd, no centro do país, sempre se viram como iranianos e judeus ao mesmo tempo.

Hoje, a comunidade mantém cerca de 30 sinagogas, além de escolas, restaurantes kosher e supermercados. O judaísmo é reconhecido pela Constituição iraniana, embora judeus não possam ocupar determinados cargos no governo e nas Forças Armadas.

É uma comunidade que não se encaixa facilmente em rótulos.

«Muitos são cautelosos com estrangeiros. A autocensura é comum. Alguns são sionistas discretos; outros criticam abertamente Israel e o sionismo», disse Loewenstein.

«Muitos também se opõem ao governo Trump e aos ataques israelenses. A destruição de uma sinagoga em Teerã reforçou o temor de que Israel e Netanyahu não se importam com o destino deles.»

Há cerca de vinte anos, Israel chegou a incentivar a saída de judeus iranianos, oferecendo dinheiro para estimular uma migração em massa. A proposta foi rejeitada pela Sociedade de Judeus Iranianos como «manobra política imatura».

Na semana passada, antes do Shabat, em um serviço na sinagoga Sukkat Shalom, membros da comunidade reiteraram esse sentimento. Setareh, 60 anos, que se descreve como «iraniana orgulhosa», disse que as sinagogas da cidade seguem abertas ao longo do dia, mesmo durante a guerra.

«Muçulmanos e judeus vivem juntos aqui. Não há separação», disse Ayman, 35 anos. «Somos todos iranianos. Este é o nosso país.»

Por Mohammad Mohsenifar, em Teerã, e Stefanie Glinski.