Comunidade judaica de Teerã resiste após bombardeio israelense destruir sinagoga Por Mohammad Mohsenifar, em Teerã, e Stefanie Glinski.
Sinagoga Rafi’ Nia danificada após ataques EUA-Israelenses. Fotografia de Fatemeh Bahrami.
Na noite de 6 de abril, Asef, 65 anos, e outros membros da comunidade judaica de Teerã se reuniram na sinagoga Rafi’ Nia, no centro da cidade, para celebrar a Pessach, apesar da campanha de bombardeios conduzida por Estados Unidos e Israel.
No salão pouco iluminado, com tapetes persas e cortinas verde-menta, versículos da Torá eram recitados e orações murmuradas em voz baixa. Asef, de camisa cuidadosamente por dentro da calça e uma kipá na cabeça, sentava-se entre os homens; as mulheres ficavam separadas, do outro lado. O ambiente era solene, contido.
«Não deixamos o conflito nos impedir de celebrar», disse. Segundo ele, a comunidade se esforçou para manter as tradições da Pessach mesmo em meio à guerra.
Quando voltou para casa, já era noite. As ruas estavam quase vazias.
Na manhã seguinte, ao se preparar para sair, soube que um ataque aéreo israelense havia destruído completamente a sinagoga.
O exército israelense classificou o episódio como «dano colateral» de uma operação que visava um comandante. Entre os judeus locais, a reação foi de indignação. Ninguém se feriu, embora um funcionário estivesse no escritório da sinagoga no momento do ataque.
No dia seguinte, frequentadores voltaram ao local e passaram horas vasculhando os escombros. Conseguiram resgatar alguns livros religiosos e três pergaminhos da Torá. O restante se perdeu entre tijolos e vergalhões.
Sinagoga Rafi’ Nia danificada após ataques EUA-Israelenses. Fotografia de Fatemeh Bahrami.
«Está tudo ali embaixo, inclusive parte do nosso acervo histórico», disse Homayoun Sameh, deputado e chefe da Associação Judaica do Irã, que visitou o local. «Condenamos este ataque. É um desrespeito à nossa fé. A comunidade judaica do Irã não tem boas relações com o governo sionista de Israel.»
A comunidade judaica iraniana é a maior e mais antiga do Oriente Médio fora de Israel, com cerca de 2.500 anos de história, desde o exílio de judeus sob domínio assírio e babilônico.
Autoridades iranianas recorrem há décadas a uma retórica abertamente antissemita contra Israel — o ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad chegou a chamar o extermínio de 6 milhões de judeus pelos nazistas de «mito» —, mas o governo sustenta que sua posição é dirigida ao Estado israelense, não aos judeus.
A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã expôs a posição singular dessa comunidade, que acabou também atingida por um conflito que o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirma travar em defesa dos judeus.
Até 1979, o Irã — sob o xá Mohammad Reza Pahlavi — era o principal aliado de Israel na região. Após a revolução islâmica, o aiatolá Ruhollah Khomeini rompeu relações diplomáticas. Desde então, os dois países permanecem em confronto.
«Fala-se de uma suposta era de ouro antes de 1979, quando Teerã e Tel Aviv eram próximas», disse o jornalista Antony Loewenstein, autor de The Palestine Laboratory. «Mas foi também um período em que Israel apoiou e armou o regime do xá.»
Depois da revolução, a população judaica caiu de cerca de 100 mil para entre 10 mil e 15 mil pessoas, hoje concentradas principalmente em Teerã, Isfahan e Shiraz.
«Nos primeiros anos, havia muita confusão. Muitos nos associavam ao sionismo. Propriedades foram confiscadas, e muita gente teve medo e saiu do país», disse Sameh.
Outros ficaram, como a família do rabino-chefe Younes Hamami Lalehzar, 61 anos, médico internista do hospital judaico de Teerã. Vindos de Yazd, no centro do país, sempre se viram como iranianos e judeus ao mesmo tempo.
Hoje, a comunidade mantém cerca de 30 sinagogas, além de escolas, restaurantes kosher e supermercados. O judaísmo é reconhecido pela Constituição iraniana, embora judeus não possam ocupar determinados cargos no governo e nas Forças Armadas.
É uma comunidade que não se encaixa facilmente em rótulos.
«Muitos são cautelosos com estrangeiros. A autocensura é comum. Alguns são sionistas discretos; outros criticam abertamente Israel e o sionismo», disse Loewenstein.
«Muitos também se opõem ao governo Trump e aos ataques israelenses. A destruição de uma sinagoga em Teerã reforçou o temor de que Israel e Netanyahu não se importam com o destino deles.»
Há cerca de vinte anos, Israel chegou a incentivar a saída de judeus iranianos, oferecendo dinheiro para estimular uma migração em massa. A proposta foi rejeitada pela Sociedade de Judeus Iranianos como «manobra política imatura».
Na semana passada, antes do Shabat, em um serviço na sinagoga Sukkat Shalom, membros da comunidade reiteraram esse sentimento. Setareh, 60 anos, que se descreve como «iraniana orgulhosa», disse que as sinagogas da cidade seguem abertas ao longo do dia, mesmo durante a guerra.
«Muçulmanos e judeus vivem juntos aqui. Não há separação», disse Ayman, 35 anos. «Somos todos iranianos. Este é o nosso país.»
Por Mohammad Mohsenifar, em Teerã, e Stefanie Glinski.
