Uma espiã a bordo. Como Israel infiltrou a flotilha para Gaza

Uma espiã a bordo. Como Israel infiltrou a flotilha para Gaza Por Sacha Biazzo

A agente sueca infiltrada na Freedom Flotilla a serviço de uma organização ligada ao Mossad e ao governo israelense

Ter um namorado é motivo de vergonha agora?

Ter um namorado é motivo de vergonha agora? Por Chanté Joseph

Frame do filme Como perder um homem em 10 dias (2003).   Se alguém ousa dizer «meu namo–» nas redes sociais, é silenciado na hora. Nada me irrita mais do que seguir alguém só por diversão e, de repente, ver todo o conteúdo dessa pessoa se transformar em algo «meu namorado»-ficado....

Mira Nair — a cineasta que fez da inquietação uma estética

Mira Nair — a cineasta que fez da inquietação uma estética Por John Lahr

Mãe do novo prefeito de Nova York, Nair é uma artista que aprendeu a transformar deslocamento em pertencimento.

O uso das palavras

O uso das palavras Por Natalia Ginzburg

Nos encontramos rodeados por palavras que não nasceram do nosso vivo pensamento, mas que foram fabricadas artificialmente com motivações hipócritas.

Massimo Recalcati: Desejo nos salvar de todas as melancolias

Massimo Recalcati: Desejo nos salvar de todas as melancolias Por Antonio Gnoli

As imagens das coroas de flores preparadas elo pai florista e a precoce consciência da morte. A descoberta de Freud e Sartre

Aritmética do infinito

Aritmética do infinito Por Guido Vitiello

Que sentido faz discutir se a pena deve ser de vinte anos ou de prisão perpétua, diante de um massacre que ultrapassa a escala humana, «não mais do que as grandezas astronômicas e os anos-luz»?

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Natalia Ginzburg. Fotografia de Leonardo Cendamo.   Pediram que me candidatasse às eleições, na lista do Partido comunista, e eu aceitei. Logo depois de ter aceitado, me perguntei se não era um ato de extrema presunção da minha parte. Nunca exerci nenhuma espécie de atividade política. Não tenho, e muitas...

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Também hoje cuspirei em Hegel Por Annalena Benini

Cinquenta anos depois de Carla Lonzi, graças a ela e às outras, podemos não nos sentir mais oprimidas. Mas não acabou aí.

Geração Z

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A literatura pode ser uma forma de resistência

A literatura pode ser uma forma de resistência Por Alex Clark

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A Arte do Ensaio Impessoal Por Zadie Smith

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Sufocar de politica

Sufocar de politica Por Guido Vitiello

Quem sofre com isso é, naturalmente, a laicidade, que é justamente a recusa do homem total e totalitário, ainda que a tentativa de impô-lo venha de um clero marchando sob insígnias seculares abusivas.

História estética da vulva

História estética da vulva Por Virginie Larousse

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Cultiva o suco da vida Por Annalena Benini

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Para genocídio não existe prescrição Por Rudolf Augstein

Entrevista com Karl Jaspers

Fenomenologia do cringe

Fenomenologia do cringe Por Annalena Benini

As meninas, os meninos, sobretudo adolescentes, são dominados pelo terror do cringe, ficam paralisados diante da ideia de fazer ou dizer algo cringe, e agem ou deixam de agir em função disso.

Na Prisão de Evin

Na Prisão de Evin Por Amir Ahmadi Arian

Foi o ataque mais letal contra um único alvo durante os doze dias de guerra. Evin parecia um lugar estranho para escolher. Muitos de seus presos são dissidentes políticos ou estrangeiros

Todos esses livros que acumulamos e que jamais leremos

Todos esses livros que acumulamos e que jamais leremos Por Thomas Chatteron Williams

«Acabei entendendo que isso é menos um fardo do que uma forma de riqueza»

Comunidade judaica de Teerã resiste após bombardeio israelense destruir sinagoga
23.04.2026

Comunidade judaica de Teerã resiste após bombardeio israelense destruir sinagoga Por Mohammad Mohsenifar, em Teerã, e Stefanie Glinski.

Sinagoga Rafi’ Nia danificada após ataques EUA-Israelenses. Fotografia de Fatemeh Bahrami.

 

Na noite de 6 de abril, Asef, 65 anos, e outros membros da comunidade judaica de Teerã se reuniram na sinagoga Rafi’ Nia, no centro da cidade, para celebrar a Pessach, apesar da campanha de bombardeios conduzida por Estados Unidos e Israel.

No salão pouco iluminado, com tapetes persas e cortinas verde-menta, versículos da Torá eram recitados e orações murmuradas em voz baixa. Asef, de camisa cuidadosamente por dentro da calça e uma kipá na cabeça, sentava-se entre os homens; as mulheres ficavam separadas, do outro lado. O ambiente era solene, contido.

«Não deixamos o conflito nos impedir de celebrar», disse. Segundo ele, a comunidade se esforçou para manter as tradições da Pessach mesmo em meio à guerra.

Quando voltou para casa, já era noite. As ruas estavam quase vazias.

Na manhã seguinte, ao se preparar para sair, soube que um ataque aéreo israelense havia destruído completamente a sinagoga.

O exército israelense classificou o episódio como «dano colateral» de uma operação que visava um comandante. Entre os judeus locais, a reação foi de indignação. Ninguém se feriu, embora um funcionário estivesse no escritório da sinagoga no momento do ataque.

No dia seguinte, frequentadores voltaram ao local e passaram horas vasculhando os escombros. Conseguiram resgatar alguns livros religiosos e três pergaminhos da Torá. O restante se perdeu entre tijolos e vergalhões.

 

Sinagoga Rafi’ Nia danificada após ataques EUA-Israelenses. Fotografia de Fatemeh Bahrami.

 

«Está tudo ali embaixo, inclusive parte do nosso acervo histórico», disse Homayoun Sameh, deputado e chefe da Associação Judaica do Irã, que visitou o local. «Condenamos este ataque. É um desrespeito à nossa fé. A comunidade judaica do Irã não tem boas relações com o governo sionista de Israel.»

A comunidade judaica iraniana é a maior e mais antiga do Oriente Médio fora de Israel, com cerca de 2.500 anos de história, desde o exílio de judeus sob domínio assírio e babilônico.

Autoridades iranianas recorrem há décadas a uma retórica abertamente antissemita contra Israel — o ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad chegou a chamar o extermínio de 6 milhões de judeus pelos nazistas de «mito» —, mas o governo sustenta que sua posição é dirigida ao Estado israelense, não aos judeus.

A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã expôs a posição singular dessa comunidade, que acabou também atingida por um conflito que o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirma travar em defesa dos judeus.

Até 1979, o Irã — sob o xá Mohammad Reza Pahlavi — era o principal aliado de Israel na região. Após a revolução islâmica, o aiatolá Ruhollah Khomeini rompeu relações diplomáticas. Desde então, os dois países permanecem em confronto.

«Fala-se de uma suposta era de ouro antes de 1979, quando Teerã e Tel Aviv eram próximas», disse o jornalista Antony Loewenstein, autor de The Palestine Laboratory. «Mas foi também um período em que Israel apoiou e armou o regime do xá.»

Depois da revolução, a população judaica caiu de cerca de 100 mil para entre 10 mil e 15 mil pessoas, hoje concentradas principalmente em Teerã, Isfahan e Shiraz.

«Nos primeiros anos, havia muita confusão. Muitos nos associavam ao sionismo. Propriedades foram confiscadas, e muita gente teve medo e saiu do país», disse Sameh.

Outros ficaram, como a família do rabino-chefe Younes Hamami Lalehzar, 61 anos, médico internista do hospital judaico de Teerã. Vindos de Yazd, no centro do país, sempre se viram como iranianos e judeus ao mesmo tempo.

Hoje, a comunidade mantém cerca de 30 sinagogas, além de escolas, restaurantes kosher e supermercados. O judaísmo é reconhecido pela Constituição iraniana, embora judeus não possam ocupar determinados cargos no governo e nas Forças Armadas.

É uma comunidade que não se encaixa facilmente em rótulos.

«Muitos são cautelosos com estrangeiros. A autocensura é comum. Alguns são sionistas discretos; outros criticam abertamente Israel e o sionismo», disse Loewenstein.

«Muitos também se opõem ao governo Trump e aos ataques israelenses. A destruição de uma sinagoga em Teerã reforçou o temor de que Israel e Netanyahu não se importam com o destino deles.»

Há cerca de vinte anos, Israel chegou a incentivar a saída de judeus iranianos, oferecendo dinheiro para estimular uma migração em massa. A proposta foi rejeitada pela Sociedade de Judeus Iranianos como «manobra política imatura».

Na semana passada, antes do Shabat, em um serviço na sinagoga Sukkat Shalom, membros da comunidade reiteraram esse sentimento. Setareh, 60 anos, que se descreve como «iraniana orgulhosa», disse que as sinagogas da cidade seguem abertas ao longo do dia, mesmo durante a guerra.

«Muçulmanos e judeus vivem juntos aqui. Não há separação», disse Ayman, 35 anos. «Somos todos iranianos. Este é o nosso país.»

Por Mohammad Mohsenifar, em Teerã, e Stefanie Glinski.