Sem uma mente política Por Natalia Ginzburg
Natalia Ginzburg. Fotografia de Leonardo Cendamo.
Pediram que me candidatasse às eleições, na lista do Partido comunista, e eu aceitei. Logo depois de ter aceitado, me perguntei se não era um ato de extrema presunção da minha parte. Nunca exerci nenhuma espécie de atividade política. Não tenho, e muitas pessoas já me disseram isso, uma mente política, isto é, uma mente capaz de situar agilmente as coisas em um contexto político. Além do mais, se me encontro diante de duas ou três pessoas, não consigo falar com desenvoltura. Não tenho conhecimento de uma enorme quantidade de fatos que outras pessoas sabem de cor e salteado.
Se for eleita, gostaria de conseguir fazer alguma coisa que se referisse à condição de vida dos velhos. Ser velho nunca foi alegre mas hoje em dia é assustador.
Como nunca exerci nenhuma espécie de atividade política, realmente não consigo me imaginar diante dessa atividade, para mim inédita. Acho que vou tentar aprender observando como os outros se movem.
Tenho uma natureza preguiçosa, e um enorme amor pelo ócio. Também tenho, porém, um enorme amor pelo trabalho. Desde que me tornei velha, passei a amar ainda mais o trabalho. É verdade que no trabalho que tive até hoje, que era essencialmente escrever, trabalho e ócio se misturavam. A pessoa que escreve trabalha enquanto desfruta o ócio e desfruta o ócio enquanto trabalha.
Desde quando aceitei me candidatar às eleições, fui entrevistada inúmeras vezes.
Durante essas entrevistas, pensei em um monte de coisas, sobre mim mesma e sobre aqueles que faziam as perguntas.
Como dizia que queria me dedicar, se fosse eleita, às condições de vida dos velhos, me perguntavam por que, considerando que sou uma intelectual, não me propunha a dedicar-me aos problemas culturais. As palavras «problemas culturais», porém, imediatamente me davam uma sensação de irritação, e de alheamento. Não acho que poderia fazer muito, no campo dos problemas culturais. Acho que me seria mais congenial trabalhar junto àqueles que trabalham para melhorar as condições de vida dos velhos.
Quando dizem «os intelectuais», não me sinto parte desse grupo. Na minha vida, escrevi alguns romances, nos quais tentava representar o mundo que tinha ao meu redor, ou o mundo que lembrava. Acho que os intelectuais são uma coisa, e os romancistas são outra. Os intelectuais comentam a realidade, os romancistas a representam. Às vezes escrevia artigos para jornais, e então comentava alguns acontecimentos. Talvez, nesses momentos, eu era uma intelectual. Mas logo deixava de ser, porque representar a realidade sem comentá-la era muito mais congenial para mim.
Às vezes, escrevendo artigos para os jornais, eu era movida por um sensação de raiva, de indignação civil. Seria insincera, porém, se dissesse que essa raiva e essa indignação civil ficavam dentro de mim sempre igualmente violentas e vivas. Por longos períodos da minha existência, não sentia nenhum tipo de raiva e observava a realidade com o simples desejo de poder representá-la.
Nas entrevistas, fui questionada muitas vezes se acreditava que os intelectuais, ou os escritores, tinham o dever de se comprometer com a vida política. Eu não acho que tenham esse dever. Acho que têm, como qualquer outra pessoa, o dever de afastar a mentira do próprio pensamento e, quando falam ou escrevem, das próprias palavras. Acho que têm, como qualquer outra pessoa, o dever da honestidade. Hoje em dia a palavra «honestidade» é usada com desconforto, porque tem pouco valor, dizem, quando não é guiada pela astúcia ou pela inteligência. Já eu acredito que tem um valor independente de quando e onde é usada, para todos. Acredito que tem valor e peso mesmo quando, ao analisar os fatos, percebemos que ela não serviu para nada.
Um dos vícios mais triste da sociedade, hoje, é o vício da generalização.
Costuma-se dizer «os intelectuais» como se fossem todos iguais. Costuma-se dizer «os escritores» como se fossem todos iguais. Costuma-se dizer «as mulheres» como se fossem uma coisa só. Costuma-se interrogar como são os jovens de hoje em dia, e como são os velhos. Costuma-se também atribuir méritos, virtudes, culpas e deveres às mulheres, aos velhos, aos jovens e aos intelectuais. Em uma linguagem como essa, o mundo parece dividido em batalhões e times. E esses times, na verdade, não existem.
Cada ser humano tem uma fisionomia própria, e um modo particular de existir no mundo. É uma obviedade, mas parece que está sendo esquecida.
Nature Morte, 1888. Pintura de Vincent van Gogh.
Não acredito que os romancistas, e os romances que escrevem, guardem dentro de si mensagens políticas, destinadas a melhorar o mundo. Não acredito que os romancistas, e os romances que escrevem, possam ser úteis à vida pública. Acredito firmemente em sua esplêndida, maravilhosa e livre inutilidade. Acho, no entanto, que às vezes pode acontecer que alguns romancistas, como indivíduos, possam sentir raiva, indignação civil, e o impulso de ser útil à vida pública, talvez em um campo muito restrito, muito limitado. Nesse caso, poderiam levar um pouco da própria experiência humana, já que eles observaram longamente os acontecimentos humanos, as fisionomias humanas, quando desfrutavam do ócio ou quando escreviam. Levariam também o peso das suas inaptidões, inabilidades, ignorâncias, incoerências e perplexidades. Levariam também o seu profundo e obstinado amor pelo ócio, pela contemplação, por uma vida solitária e apartada, e o desejo por um tempo em que exista um vasto espaço para aqueles que não têm vontade fazer nada.
Tradução Iara Pinheiro
