O uso das palavras Por Natalia Ginzburg
Sem título, 1960. Obra de Mira Schendel.
Em nossa sociedade atual, foi decretado o ostracismo da palavra cego e se diz agora deficiente visual. Foi decretado o ostracismo da palavra surdo e se diz agora deficiente auditivo. As palavras deficiente visual e deficiente auditivo foram estabelecidas pela ideia de que assim os cegos e os surdos seriam mais respeitados. A nossa sociedade não oferece aos cegos e aos surdos nenhuma espécie de solidariedade e de apoio, mas estabeleceu para eles o falso respeito dessas novas palavras. Achamos que são artificiais e que ofendem nossos ouvidos e francamente as detestamos. Agora deveríamos chamar aquele maravilhoso conto persa, chamado A coruja cega, de A coruja deficiente visual? Na verdade, cada um, dentro de si, continua a dizer cego ou surdo, mas em voz alta diz deficiente visual e deficiente auditivo, por causa de um senso de docilidade mal aplicado e porque os jornais e a sociedade pública ostentam esse falso respeito.
Por causa da mesma motivação hipócrita, por causa do mesmo falso respeito, os velhos são chamados de idosos, como se a palavra velhice fosse uma palavra ofensiva. Na verdade não dá para entender por que a palavra velhice deve ser considerada ofensiva ou ultrajante, já que indica uma fase do ser humano que ninguém, caso continue vivo, pode escapar. O que é ultrajante na nossa sociedade é o modo como a velhice é tratada.
Ainda por causa da mesma motivação hipócrita, as empregadas são chamadas de colf, colaboradoras do lar, uma abreviação considerada graciosa. Nós, porém, em geral tendemos a não colaborar nem um pouco com as tarefas domésticas ou a colaborar muito pouco e as chamadas colf fazem tudo sozinhas em nossas casas. Para os garis, foi estabelecida a palavra operador ecológico. Dentro de nós mesmos não paramos de chamá-los de garis, mas sabemos que foi estabelecida para eles essa palavra grotesca, por uma sociedade que ignora a ironia e se considera capaz de poder criar e difundir à exaustão as próprias palavras irreais. Nos encontramos, então, rodeados por palavras que não nasceram do nosso vivo pensamento, mas que foram fabricadas artificialmente com motivações hipócritas, obra de uma sociedade que as ostenta e acredita que com elas mudou e curou o mundo.
Ainda por causa das mesmas motivações hipócritas, a sociedade impõe que não se diga pretos ou negros mas que se diga «pessoas de cor». E por quê? De que cor?
Existe alguma coisa de ultrajante nas palavras preto ou negro? Os negros, quando falam de nós, não dizem os brancos? O termo «pessoas de cor», pudico, cauto, cerimonioso e impreciso, não seria talvez mais ultrajante, mais discriminatório que a palavra negro que já existia e que é verdadeira?
Temos tanto medo assim da realidade? Temos tanto medo assim da doença e da morte, a ponto de nos abster de dizer a palavra câncer e acreditar que devemos dizer sempre «um mal incurável»?
Assim acaba que as pessoas têm uma linguagem que é sua, uma linguagem na qual os garis são garis e os cegos são cegos, porém ao seu redor, na vida cotidiana, se deparam com uma linguagem artificiosa, e se abrem um jornal, encontram uma outra coisa, não a própria linguagem. Uma linguagem artificiosa, cadavérica, feita daquilo que Wittgenstein chamava de «palavras-cadáveres». Por docilidade, por obediência – as pessoas frequentemente são obedientes e dóceis – tenta-se usar esses cadáveres de palavras quando se fala em público ou em voz alta no geral, e mantemos a nossa verdadeira linguagem clandestinamente dentro de nós. Parece um problema insignificante mas não é. Se trata, na verdade, de um problema essencial. A linguagem das palavras-cadáveres contribuiu para criar uma distância impreenchível entre o vivo pensamento das pessoas e a sociedade pública. Os intelectuais deveriam limpar o solo de todas essas palavras-cadáveres, sepultá-las e fazer com que as palavras da realidade reapareçam nos jornais e na vida pública.
Às vezes as palavras que ouvimos os outros usarem e que nós mesmos usamos, por docilidade, não são só hipócritas, são aberrações. O extermínio dos judeus nos campos de concentração nazistas agora é constantemente chamado de holocausto. Se procurarmos a palavra holocausto no dicionário, encontramos como definição «sacrifício de uma vítima a Deus». Que sacrifício era esse e em nome de qual Deus foram assassinados milhões de judeus nas câmaras de gás? Não foi um holocausto, foi um genocídio. Não houve nenhum holocausto durante o nosso século. Houve um genocídio. Na aplicação da palavra holocausto, fica clara a intenção de dar uma dignidade histórica e religiosa a um evento no qual a religião e a dignidade simplesmente não existiam. Aliás, ao nos lembrarmos dele, percebemos a absoluta ausência de uma ideia que não fosse morte e destruição. Ao chamá-lo de holocausto, há a vontade de justificá-lo, de enobrecê-lo. Por isso a palavra holocausto é ultrajante para a memória dos mortos. Foi um genocídio. Inseriu em nosso século uma ideia de genocídio que não existia antes, o extermínio calculado e estudado em uma mesa, tranquilamente, friamente e sem sentimentos. Em seguida, de novo sem sentimentos e tranquilamente, outras pessoas se sentaram a uma mesa e planejaram massacres. A importância dessas mesas e a inexorável tranquilidade desses cálculos não podem ser esquecidas. Naquele tempo, os nazistas deram o nome de «solução final» para esses cálculos. Era atroz, todavia talvez fosse menos hipócrita que a palavra holocausto, estabelecida, se não me engano, nos últimos dez anos.
Era essencial, no passado, não confundir os nazistas com o povo alemão como um todo, porque essa confusão era racista e não verdadeira. Hoje é essencial não definir os israelenses como judeus, porque essa confusão é racista, e porque os infinitos judeus espalhados pelo mundo não têm nada a ver com os militares israelenses que dilaceram crianças e com o governo de Shamir. Dizer judeus e palestinos é falso. Deveríamos dizer sempre israelenses e palestinos. São infinitos os judeus espalhados pelo mundo que esperam que Shamir desapareça e que o seu sucessor devolva as terras ocupadas aos palestinos, que o seu sucessor seja finalmente uma pessoa pacífica. Os judeus também erram às vezes, porque se sentem culpados, e acham que são responsáveis pelas infâmias cometidas nas terras ocupadas da Palestina e pelo governo de Shamir. Erram, e eles também usam a palavra judeu de um modo que não corresponde à verdade. E de novo sentimos a necessidade absoluta de situar as palavras na zona da verdade e da realidade.
Sem título, da série Aaaa, 1960. Obra de Mira Schendel.
Detectamos a todo momento essa necessidade e essa importância. Algumas pessoas disseram tempos atrás que o Partido comunista deveria mudar de nome. Por quê? O mundo ao redor do Partido comunista se transformou, ao longo de quarenta anos, e aliás está irreconhecível em alguns aspectos. Mas as raízes do Partido comunista continuam sendo as mesmas de sempre, assim como o lugar que ocupa. É o Partido
socialista que deveria mudar de nome. O lugar que ocupa mudou. Qual é, na verdade, a relação entre o Partido socialista de hoje e o que foi no passado? Qual afinidade de propósito, qual remota semelhança existe entre o socialismo de Filippo Turati, Pietro Nenni e Riccardo Lombardi, e hoje o de Bettino Craxi o Claudio Martelli? No Partido socialista de hoje não resta nem sequer sombra ou memória de Filippo Turati e de Lombardi. Não resta nem mesmo uma pálida vontade de conservar a memória. São dois planetas a anos luz de distância. Por que se chama ainda hoje Partido socialista? Por que não muda de nome? Parece um detalhe irrelevante mas não é. Eu acho que todos nós estaríamos melhores, acho que o ar se tornaria mais límpido, se o Partido socialista finalmente mudasse de nome.
Tradução Iara Machado
