Geração Z Por Marco Bardazzi
Barak Obama após sua reeleição em 2012.
Há um momento histórico preciso, na história recente dos Estados Unidos, que marca um antes e um depois, cujas consequências estão cada vez mais evidentes. É um episódio ligado a uma eleição até agora pouco estudada, porque parecia entre as menos relevantes e traumáticas da vida americana. Uma campanha presidencial quase entediante, se comparada às outras que o país viveu no século XXI. Mas foi um ano em que aconteceram muitas coisas, entre elas o surgimento da Geração Kirk, aquele movimento predominantemente jovem que lançou as bases para a chegada posterior dos Maga e cuja importância se revela plenamente apenas agora, depois que seu principal protagonista, Charlie Kirk, foi morto com um disparo de arma de fogo.
Se as campanhas presidenciais dos anos 2000 fossem realmente um filme, a de 2012 se pareceria com uma cena tranquila, um momento de transição em que os protagonistas retomam o fôlego, recuperam a calma após as emoções dos anos anteriores e ficam à espera dos acontecimentos tumultuosos que estavam por vir. E se, ao contrário, tivesse sido justamente aquela eleição a que mudou tudo? Cada vez mais analistas e comentaristas de diferentes orientações políticas acreditam nisso — de Ezra Klein e Ross Douthat, do New York Times, ao ideólogo dos Maga, Steve Bannon, passando por colegas e herdeiros do ativista assassinado, como Ben Shapiro ou Matt Walsh, os porta-vozes da nova Geração Kirk. Não é por acaso que justamente em 2012 o então jovem Charlie, com dezoito anos, recém-rejeitado pela academia militar de West Point, na qual esperava entrar, decidiu dar vida ao seu movimento estudantil.
Vale a pena então revisitar os acontecimentos daquele ano, para rastrear as raízes da profunda guinada do mundo conservador, religioso e libertário em direção ao populismo — um movimento sísmico que lançou as bases para a era trumpista, que já dura uma década e pode continuar muito além do fim do segundo mandato de Trump. Os republicanos e conservadores tradicionais, que em grande parte se identificam com o Grand Old Party, chegam à eleição de 2012 cheios de desejo de revanche. Os oito anos da presidência de Bush já parecem distantes, a América mudou e a crise econômica iniciada em 2008 ainda se faz sentir. A derrota de McCain criou uma fratura no partido e em sua base eleitoral. O establishment republicano continua forte, mas é desafiado internamente por um movimento populista, o Tea Party, que quer uma guinada libertária: exige uma forte redução do aparato federal, cortes nos gastos públicos e, sobretudo, uma diminuição substancial da carga tributária. A besta negra do movimento é a lei-símbolo do primeiro mandato de Obama, o Affordable Care Act, mais conhecido como Obamacare. A reforma da saúde ofereceu cobertura médica custeada pelo Estado e por empresas privadas a milhões de americanos que não a possuíam. Foi um passo importante para o bem-estar social nos Estados Unidos, mas o mundo conservador a enxerga como uma medida «socialista», que aproxima a América dos decadentes países europeus, custa caro demais aos cofres públicos e às empresas e é excessivamente generosa com os imigrantes.
Enquanto o Tea Party se concentra na política fiscal, uma ampla fatia da direita americana – sobretudo ligada ao mundo das igrejas evangélicas e ao catolicismo conservador – se mobiliza em torno das guerras culturais relacionadas ao aborto, ao casamento gay e à defesa da família tradicional. Os candidatos à Casa Branca que conquistam apoio tanto no Tea Party quanto no setor religioso do partido são dois: o ex-senador da Pensilvânia Rick Santorum e o ex-presidente da Câmara, Newt Gingrich. A liderança do partido, no entanto, não simpatiza com eles e aposta em um candidato mais tradicional e moderado como Romney.
Quando começam as primárias, a divisão dentro dos republicanos fica evidente: pela primeira vez na história, os três primeiros estados que tradicionalmente votam – Iowa, New Hampshire e Carolina do Sul – são vencidos por três candidatos diferentes: respectivamente Santorum, Romney e Gingrich. O partido entra em curto-circuito; ninguém parece forte o suficiente para enfrentar Obama nas eleições nacionais de novembro. Buscam-se novos nomes, e até se cogita a possível entrada em campo de uma celebridade da TV, o rei dos arranha-céus de Nova York e dos cassinos de Atlantic City, Donald Trump, que havia migrado dos democratas para os republicanos e causara escândalo com suas acusações de que Obama não seria americano e teria falsificado a certidão de nascimento. Mas Trump observa as pesquisas e entende que ainda não é o seu momento: ele chegaria quatro anos depois, tornando-se presidente e surpreendendo a todos.
No fim, Romney prevalece. O partido se une em torno dele, mas sem muito entusiasmo, e tenta pela última vez apresentar-se aos americanos com uma linha política moderada. A base conservadora fica furiosa: considera Romney representante de uma elite distante das ideias e dos problemas da «massa» do país. Não ajuda o fato de seu candidato a vice ser Paul Ryan, um moderado de Wisconsin, jovem de aparência limpa, que agrada ao Tea Party, mas não à direita religiosa e aos protagonistas das guerras culturais, que o veem como alguém excessivamente disposto a compromissos e a lidar com os desafios usando as ferramentas tradicionais da política de Washington (mais tarde se tornaria presidente da Câmara entre as presidências Obama e Trump, para depois desaparecer da cena política, varrido pelo trumpismo e pelo movimento Maga).
Campanha presidencial de Donald Trump em 2016.
A verdadeira surpresa, porém, acontece à esquerda. Barack Obama havia vencido as eleições de 2008 com uma mensagem de grande inspiração. O primeiro afro-americano a conquistar a Casa Branca se apresentara como o reunificador do país, apoiando-se sobretudo na força de sua biografia: filho de uma branca do Meio-Oeste e de um imigrante do Quênia. Mas, depois de um primeiro mandato complexo e cheio de desafios, a equipe de estrategistas de Obama decide enfrentar as eleições de 2012 de uma forma totalmente diferente: deslocando-se nitidamente para a esquerda, elevando o tom do embate e acusando os adversários de serem perigosos extremistas.
Causa certa impressão, anos depois, rever os anúncios e os conteúdos eleitorais da campanha Obama-Biden 2012: um verdadeiro primor de comunicação, construído explorando ao máximo todas as novas potencialidades das redes sociais e da era digital. Os moderados Romney e Ryan são descritos como uma espécie de afiliados dos Proud Boys, e a América sob sua liderança é retratada pela equipe de Obama como um perigoso covil de fanáticos religiosos. O vice-presidente Joe Biden chega ao ponto de dizer, em comícios dirigidos a plateias negras, que se os republicanos vencerem «eles vão colocar todos vocês de volta nas correntes». Imagens muito distantes do perfil real do dócil Romney, que desorientam o adversário do presidente e o empurram para a defensiva.
A batalha é particularmente intensa nos campi universitários, onde 75% dos estudantes votam nos democratas e onde cresce o movimento Moveon.org, que mobiliza os jovens explorando sobretudo as guerras culturais, os temas de direitos, gênero e discriminações raciais. É aí que nasce a reação dos jovens do mundo conservador, que se sentem sufocados ao ver crescer nas universidades aquilo que alguns anos depois seria chamado de cultura «woke». Poucos meses antes de morrer, Charlie Kirk contou esse momento em uma conversa num podcast com Gavin Newsom, o governador da Califórnia que — de olho em uma provável campanha presidencial — está explorando o universo Maga para entender onde os democratas erraram nesses anos.
Recém-matriculado no Harper College, em Illinois, o jovem de dezoito anos Kirk preferia fazer comícios a frequentar aulas. Um dia, ele falou das angústias de sua geração em um debate na vizinha Benedictine University, e entre os ouvintes estava um ativista do Tea Party, Bill Montgomery, de 72 anos, que ficou impressionado. Em pouco tempo, Charlie e Bill fundaram o movimento Turning Point, «que no começo era quase nada» — contou Kirk a Newsom — «na prática, era só eu com uma mesinha no meio do campus, com um cartaz escrito ‘desafie-me para um debate’». Mas, em apenas quatro anos, a tempo da campanha de Trump em 2016, aquela organização se tornaria a Moveon.org da direita, capaz de reduzir de 75% para 65% o voto dos universitários nos democratas.
«O que nos mobilizou foi a campanha de Obama em 2012», contou Ben Shapiro, uma das vozes emergentes do mundo Maga, no podcast de Ezra Klein. «Em 2008, como conservador, eu ainda havia admirado Obama pela mensagem que transmitia. A ideia era que não devíamos mais nos dividir, que havia apenas um povo formado por americanos. E a noção era de que ele representava uma espécie de apoteose dessa união. Seria o ponto culminante de muitos fios da história americana que se uniam para resolver muitos dos problemas que haviam afligido os Estados Unidos».
Quatro anos depois, porém, segundo Shapiro — e numa leitura que agora também é compartilhada por parte do mundo progressista —, a equipe de Obama fez uma guinada que, em vez de unir, radicalizou profundamente a América e lançou as bases para a subsequente ascensão de Trump. «O Obamacare havia provocado uma forte reação negativa — contou Shapiro — e ele reagiu polarizando o eleitorado. Obama decidiu que, em vez de transmitir uma mensagem otimista ao eleitorado, concentraria a campanha em uma linha política muito mais enraizada nos grupos identitários. Passou a se dirigir aos afro-americanos enquanto afro-americanos, aos homossexuais enquanto homossexuais e aos latino-americanos enquanto latino-americanos.»
Obama e os democratas, segundo essa leitura, decidiram deliberadamente fragmentar a América que, quatro anos antes, haviam se esforçado para unir. Alguns episódios da campanha eleitoral contribuíram para a polarização, sobretudo o assassinato, na Flórida, do jovem negro de 17 anos Trayvon Martin, morto sem motivo aparente por um vigilante, George Zimmerman, que foi absolvido porque o garoto — que caminhava na rua com o capuz do moletom sobre a cabeça — parecia «ameaçador». Esse foi um dos eventos que dariam origem ao movimento Black Lives Matter e Obama, de acordo com seus críticos, teria explorado o caso para fins eleitorais. «Se eu tivesse um filho homem, ele se pareceria com Trayvon», disse o presidente, que após evitar cuidadosamente o tema racial na campanha de 2008, o tornou central em seu segundo mandato.
A derrota de Romney, segundo Shapiro, «levou o Partido Democrata a transmitir uma nova mensagem: temos uma coalizão imbatível. Essa nova coalizão que Obama forjou em 2012 — na qual perdeu votos em relação a 2008, mas ainda assim manteve uma maioria muito sólida — é o caminho a seguir. ‘Nunca mais perderemos’, pensaram, ‘porque seremos capazes de formar uma coalizão que mantenha unidas maiorias e minorias, sustentada pelos brancos com ensino universitário, em particular as mulheres’.» E os republicanos entenderam exatamente a mesma mensagem, ou seja: «Não importa o quanto sejamos moderados, não importa o quão limpo seja o candidato, sempre seremos destroçados e perderemos. Estamos perdendo simplesmente por causa da demografia do país».
Foi a partir daí que começou a corrida de Charlie Kirk e seus companheiros, durante todo o segundo mandato de Obama, nos mesmos anos em que o jovem J.D. Vance reunia as anotações para escrever o livro Elegia Americana e Donald Trump se preparava para uma entrada em cena que varreria todo o antigo establishment republicano. Há quatro anos se espera, nos Estados Unidos, a segunda parte das memórias presidenciais de Obama, aquela dedicada ao segundo mandato: é provável que o ex-presidente esteja encontrando dificuldade para elaborar a narrativa certa, a fim de se defender da acusação crescente de ter sido, em grande parte, responsável pela ascensão de Trump.
