Um instantâneo datado de 1961: Miles Davis, John Coltrane e a Nova York resplandecente do grande jazz Por Marco Bardazzi
Jazz, 1947. Obra de Henri Matisse.
É uma noite qualquer de 1961 e nas ruas do Greenwich Village a vida pulsa ao som de uma trilha sonora de jazz e folk music. No porão do Village Vanguard, na Sétima Avenida, Miles Davis está tocando «So What». É um dos temas que reuniu num álbum destinado a entrar para a história: chama-se «Kind of Blue». No Vanguard esta noite não está ao seu lado John Coltrane. O discípulo já alçou voo, ainda toca de vez em quando com o mestre Miles, mas está construindo seu próprio caminho. Para quem quiser ouvir Coltrane, não há muito caminho a percorrer. Provavelmente esta noite ele está no Five Spot em Cooper Square, do outro lado do Village, se não for a noite em que o palco está reservado para Thelonious Monk ou para aquele maluco do Ornette Coleman. Pode também estar na Jazz Gallery na St. Marks Place ou no Cafe Bohemia. Basta seguir as notas para saber quem toca esta noite, mas num raio de poucos quarteirões, indo do Vanguard ao Five Spot na Bowery, há o grande risco de se «distrair». Porque pelo caminho é possível se deparar com Bob Dylan e Joan Baez cantando nos porões, com Jack Kerouac e Allen Ginsberg fazendo uma leitura de poemas, com Mark Rothko ou com o jovem Andy Warhol tomando alguma coisa no Cedar Tavern ou no Gaslight Café.
Cenas de uma Nova York que não existe mais, momentos capturados num instante preciso da história, 1961, em que Manhattan era uma espécie de nova Florença, tomada por um Renascimento que via uma concentração irrepetível de talentos num espaço geográfico restrito e preciso, que favorecia as contaminações. Algo que durou um sopro e se dissolveu rapidamente no restante dos anos Sessenta e Setenta, com o assassinato de John F. Kennedy, a guerra no Vietnã, as revoltas estudantis, os desvios psicodélicos, o Watergate.
O 2026 na América não é apenas o ano das celebrações pelos 250 anos da Declaração de Independência, mas é também o momento de um duplo centenário na história do jazz, que é parte integrante da história dos Estados Unidos e sobretudo da dos negros americanos. Em 26 de maio são cem anos do nascimento de Miles Davis, em 23 de setembro será a vez das celebrações pelo centenário de John Coltrane. Se Nova York por um momento foi Florença, na prática é como dizer que no jazz este ano se comemoram os aniversários de Leonardo e Michelangelo. Em todo o mundo estão previstos momentos de escuta, aprofundamento e estudo dedicados à trompete de Miles e ao saxofone de «Trane», junto a um relançamento dos seus álbuns mais célebres, cuja difusão nunca encontrou crises mesmo após a saída de cena dos dois protagonistas — Davis teve uma longuíssima carreira e morreu em 1991, Coltrane por sua vez desapareceu aos apenas 40 anos.
Uma forma de lembrar Davis e Coltrane é parar o filme de sua história num fotograma particular, um momento específico e comum no percurso dos dois gigantes do jazz. Em 1961, por exemplo, quando ambos tinham trinta e cinco anos, mas Miles já era considerado um mestre, enquanto John era o discípulo que havia construído sua própria trajetória de protagonista, ainda que não soubesse que ela duraria apenas mais cinco anos: a heroína e a garrafa contribuíram para o câncer no fígado que o destruiu. Difícil dizer se aquele ano deve ser considerado o auge de suas carreiras — depende dos gostos e da crítica. Miles teve uma multiplicidade de quedas e renascimentos e se aventurou e inovou em vários gêneros musicais por todos os anos Setenta e Oitenta. Coltrane em 1961 já tinha em seu currículo obras-primas como «Blue Train», «Giant Steps» e «My Favorite Things», mas tinha pela frente anos de novos sucessos, até chegar a «A Love Supreme» como momento de síntese de seu percurso artístico.
Mas 1961 é um fotograma que conta algo de inusitado e irrepetível que acontece ao redor de Davis e Coltrane e envolve e estimula a ambos. Os renascimentos urbanos são fenômenos raros, convergências de talentos num espaço geográfico restrito que levam a contaminações artísticas impossíveis de planejar. O Village do início dos anos Sessenta pode ser comparado talvez à Paris dos anos Vinte, onde entre Montparnasse e o Café de Flore era possível encontrar Picasso e Matisse, Hemingway e Gertrude Stein, Joyce e Ezra Pound, Stravinsky e Modigliani. Ou à Viena dos primeiros anos do século Vinte, onde nos cafés ao longo da Ringstrasse circulavam Gustav Klimt e Sigmund Freud, Gustav Mahler e Ludwig Wittgenstein, Egon Schiele e Otto Wagner. Ou ainda à «swinging London» da segunda metade dos anos Sessenta, a cidade dos Beatles e dos Rolling Stones, dos Who e de Mary Quant.
A comparação mais fascinante e talvez mais precisa para a Nova York de 1961 é porém a Florença de cinco séculos antes, aquela que o Renascimento não imitou, mas inventou. Aquela concentração de artistas que se encontram no Village do início dos anos Sessenta já havia acontecido por exemplo na Florença de 1480. Também lá, naquele fotograma histórico, era possível ir em vinte minutos de uma extremidade à outra de uma cidade de quarenta mil habitantes encontrando pelo caminho a oficina do Verrocchio onde o jovem discípulo Leonardo da Vinci já era uma estrela, o estúdio de Botticelli que ensinava arte a Filippino Lippi, os debates acadêmicos conduzidos por Marsilio Ficino. Tudo sob a munificente proteção dos Médici, com Lorenzo, o Magnífico, recém-retornado ao poder após a conspiração dos Pazzi.
Um ecossistema de genialidade vive de um equilíbrio delicado e instável. A Nova York de 1961 é um brevíssimo parêntese antes que tudo se dissolva em mil vertentes diferentes, assim como sobre a Florença de 1480 estavam prestes a se abater as profecias e as penitências de Girolamo Savonarola. Mas imaginar uma viagem pelas ruas de Manhattan naquele momento de mudança de época é talvez o melhor tributo que se pode fazer a Davis e Coltrane no ano de seu centenário.
Blues, 1929. Pintura de Archibald Motley.
Nas ruas do Village
A América de 1961 está dividida entre a euforia por uma nova estação política e a tensão pela Guerra Fria que parece sempre prestes a se tornar «quente», senão mesmo atômica. Em janeiro o país para para celebrar a posse na Casa Branca de um jovem presidente, John Fitzgerald Kennedy, que traz consigo as atmosferas quase aristocráticas de sua Camelot democrática e uma atenção de mecenas mediceu pelo mundo dos artistas. Seu adversário geopolítico é Nikita Khrushchev, que de Moscou continua a elevar a aposta e a tensão, levando-as ao nível de maior perigo desde o fim da Segunda Guerra Mundial. O conflito à distância entre as superpotências torna-se fisicamente visível no primeiro ano da administração Kennedy, com a construção do Muro que divide Berlim em dois.
Nova York vive esse contexto num clima paradoxal. Os mísseis soviéticos com ogiva nuclear estão apontados para a cidade, o risco de ser apagado num instante por uma explosão atômica nunca foi tão concreto. E ainda assim nas ruas há uma vitalidade frenética e de cada periferia dos Estados Unidos milhares de jovens artistas sonham apenas em se mudar para cá.
Passear pela cidade e entender o motivo é difícil. Nova York é suja, violenta, fedorenta. A cada esquina se é atingido por rajadas de vento e poeira, misturadas ao cheiro de fezes de cachorro espalhadas pelas calçadas. Desviá-las é uma proeza e muitas vezes se acaba pisando num pedaço de chiclete abandonado, que gruda nos sapatos e acompanha o resto do passeio com um ruído de adesivo. Os restaurantes italianos e chineses se multiplicam também fora do Little Italy e do Chinatown, junto às delicatessens judaicas que parecem todas réplicas do Katz’s Delicatessen, e trazem consigo perfumes de comidas exóticas que disputam espaço com os aromas do street food, barracas de cachorro-quente e carrinhos de pretzel. A multidão se move de forma caótica, um caleidoscópio de chapéus fedora, sobretudos, roupas da moda, ternos sob medida e jeans. No Midtown se movem rapidamente os Mad Men das agências de publicidade da Madison Avenue, em busca do próximo cliente. Uma área que evitam com cuidado é a da Times Square, onde imperam pequenos delinquentes e casas de encontros e há sempre o risco de acabar mal. Há um garoto do Queens que até dois anos atrás pegava o metrô escondido para vir justamente aqui, à Times Square, comprar canivetes proibidos para sua coleção secreta. O pai, porém, descobriu e agora, em 1961, o rapaz é um adolescente de quinze anos mandado para fora de Nova York numa academia militar, para tentar colocá-lo nos eixos. Seu nome é Donald Trump.
O homem que domina a cidade neste momento é uma figura gigantesca e controversa, que inspirará o Trump especulador imobiliário. Seu nome é Robert Moses — nunca foi eleito para nenhum cargo público, e ainda assim prefeitos, governadores e funcionários públicos dependem de suas palavras. É o urbanista que está demolindo e reconstruindo inteiras porções de Nova York, enchendo-a de pontes e autoestradas. A metrópole está mudando de face e assumindo as características que Moses quer imprimir-lhe, o homem mais poderoso do momento. Um dos lugares símbolo de Manhattan, a histórica Pennsylvania Station, está prestes a ser reduzida a escombros por suas escavadeiras, para dar espaço a novos edifícios, novas ruas e ao Madison Square Garden. Em vários bairros da cidade, sobretudo os pobres, os habitados por artistas e em geral os que não têm boas ligações com a prefeitura, Moses é mais temido do que as bombas de Khrushchev.
Ao sul de Union Square, no Village, há quem esteja pronto a erguer barricadas para deter Moses, que por enquanto se concentra nas áreas ainda mais ao sul, no Downtown, onde bairros inteiros de lojas de eletrodomésticos estão prestes a ser demolidos para dar lugar ao World Trade Center e suas Torres Gêmeas. Nas áreas ao redor de Washington Square teme-se que em breve algo semelhante aconteça também por lá, e grupos de ativistas se organizam para resistir ao projeto de Moses de construir a Lower Manhattan Expressway, uma via expressa que cortaria ao meio esse pedaço da cidade, com pilares de concreto e vias elevadas entre os prédios do Village e do SoHo.
É nessa Nova York caótica, malcheirosa e vibrante que em janeiro de 1961 chega do Minnesota um rapaz com um violão. Seu nome é Bob Dylan, tem 19 anos e acaba de visitar seu ídolo musical, Woody Guthrie, num hospital em New Jersey. Dylan está sem dinheiro, se apresenta no Cafe Wha? no Village e pede ao dono, Manny Roth, se pode tocar algumas músicas para o público do local, para ganhar algum trocado. A plateia reage com entusiasmo — é o começo de uma carreira que chegará ao prêmio Nobel de literatura e continua até hoje. A chegada de Dylan e a posse de Kennedy abrem o ano irrepetível do renascimento nova-iorquino.
Várias artes e múltiplos artistas se cruzam entre o West e o East Village e mais acima ao longo da Broadway até um edifício no Midtown no número 1678, a dois passos do Central Park: é aqui que desde 1949 — e ainda por pouco — tem sede o lendário Birdland, onde tocaram os grandes do jazz desde os tempos de Charlie Parker e onde agora aparecem frequentemente Davis, Coltrane e sobretudo Charlie Mingus, que está gravando seus melhores álbuns e mostrando ao mundo o que se pode fazer com um contrabaixo alimentado por talento, raiva, um pouco de loucura, álcool e muitos psicotrópicos. Mas no Birdland também se apresentam artistas brancos distantes do ambiente do jazz, primeiro entre todos Frank Sinatra.
Circulando pelo Village, depara-se com uma geografia de locais que se tornaram referência para todo o ecossistema do jazz. Não é mais o momento do Harlem, como nos tempos áureos de Duke Ellington e Louis Armstrong, os dois gigantes que agora passam grande parte do tempo longe de Nova York, em tournês internacionais. A geração de Miles Davis, John Coltrane e Ornette Coleman e os jovens emergentes como Herbie Hancock estão agora todos no Village, junto a alguns veteranos como Monk. Os locais que estão fazendo a história do jazz e da música folk se chamam Gaslight Café, Gerde’s Folk City, Village Vanguard, Café Wha?, Five Spot, The Bitter End, Village Gate, Half Note, Jazz Gallery, Cafe Bizarre.
Miles é a superestrela do momento, vai e vem da Europa, percorre o mundo, é ovacionado em Paris, depois volta e se põe a tocar com seus rapazes nos pequenos locais do Village. Forma, desfaz e reforma os quintetos com que cria suas obras-primas. O primeiro nasceu alguns anos atrás, em 1955 no Café Bohemia, quando Miles voltou triunfante do Newport Jazz Festival e a Columbia Records lhe colocou à frente um contrato generoso, com uma única condição: criar uma banda estável. Ele chamou ao seu redor Sonny Rollins no sax, Red Garland no piano, Paul Chambers no contrabaixo e Philly Joe Jones na percussão. Mas pouco tempo depois Rollins teve que sair, porque a dependência da heroína o tornava pouco confiável. Miles então se deixou convencer por Jones a experimentar um saxofonista de quem no Village todos falavam bem: John Coltrane, «Trane» para os amigos.
Agora, após pouco mais de cinco anos de sucessos juntos, Trane se tornou independente e Miles toca com quintetos onde o sax muda com frequência, à espera de que Wayne Shorter se una à banda — ele será por muito tempo o parceiro de Davis. Coltrane está preparando um quarteto com o qual quer gravar uma série de sessões no Village Vanguard, que se tornarão célebres. Ambos, Miles e Trane, à noite se cruzam nos locais onde vão ouvir o transbordante talento jazzístico que circula pelas ruelas do Village naquele momento: não só Monk e Mingus, mas também gente como Coleman, Hancock, Bill Evans, Max Roach, Eric Dolphy, McCoy Tyner, Art Blakey. Enquanto passeiam ou param nos bares para tomar uma dose, cruzam e cumprimentam a outra população musical que domina a zona, a dos cantores folk que estão redesenhando o pop americano. Porque circulando por aqueles poucos quarteirões entre a Sexta Avenida e a Broadway, logo abaixo de Washington Square Park — onde a partir de 1981 surgirá um templo do jazz em memória desta época, o Blue Note —, é possível roçar boa parte dos nomes que dominarão a indústria fonográfica por anos. Dylan já começa a flirtar com Joan Baez. Guthrie está doente e sempre no hospital, mas há Pete Seeger que procura artistas para levar no verão a Newport para seu festival folk. Depois há Dave Van Ronk, o «prefeito da MacDougal Street», que ajuda todos a encontrar um lugar para dormir e para tocar. Há Peter Yarrow, Paul Stookey e Mary Travers que nestes dias estão se acertando, com a supervisão de Seeger, para criar um trio estável em vez de se encontrar apenas episodicamente em algum local do Village: o mundo está prestes a descobrir os lendários Peter, Paul & Mary.
Há dois rapazes do Queens que frequentemente passam por aqui. Tocaram juntos no colégio, são promissores, mas não conseguem se acertar sobre como continuar uma carreira. A mistura de suas duas vozes é extraordinária, mas apesar de se considerarem amigos, na realidade não se suportam. Nunca vão conseguir. De vez em quando um dos dois aparece no Gerde’s Folk City e canta alguma coisa. Depois chega o outro e rouba a cena. Agora porém parecem ter encontrado o equilíbrio certo, são vistos cada vez mais juntos no Village e os habituais olheiros da Columbia Records, que vasculham essas ruas toda noite, estão tentando convencê-los a se tornarem um duo estável. Seus nomes são Paul Simon e Art Garfunkel — o mundo está prestes a descobri-los também. «The Sound of Silence», escrita após o assassinato de Kennedy, em alguns anos será de certa forma a trilha sonora dos créditos finais que encerrarão a extraordinária temporada do Village.
Untitled [Red Collage with Music and Crayon Lines], 1990. Obra de Robert Motherwell.
Não só notas musicais
Mas a música é apenas uma parte deste efervescente «momento Renascimento» do Village. Nas mesmas ruas, nos mesmos locais por onde entram e saem saxofones e baterias, entram e saem também poetas e pintores, em busca de inspiração ou simplesmente de um prato quente e uma cerveja acompanhados de um pouco de música. No Cedar Tavern, no Minetta Tavern ou no White Horse, enquanto você está comendo alguma coisa pode acontecer de ouvir uma alegre comitiva que levanta a voz, provavelmente pelo excesso de álcool. O mais vistoso e histriônico é Allen Ginsberg, que percorre continuamente as ruas do Village. Todo mundo o conhece — de dia você o encontra entre os livros da Eighth Street Bookstore, frequentada por todos os escritores; à noite faz o circuito dos bares e volta só ao amanhecer para seu apartamento no East Village. Seu «Howl» já é o manifesto da Geração Beat, mas a verdadeira obra-prima foi escrita quatro anos atrás pelo escritor de olhar magnético que frequentemente aparece ao lado de Ginsberg e captura a atenção de todos nas leituras no Artist’s Studio. Seu nome é Jack Kerouac e já é famoso — surpreendeu a todos com seu «On the Road».
Fred McDarrah, o fotógrafo do jornal «Village Voice» que está capturando as imagens-símbolo deste ano extraordinário, o persegue toda vez que aparece num bar ou para tomar alguma coisa com os amigos no Kettle of Fish Bar na MacDougal Street, onde às vezes se encontra sentado no banco ao lado daquele em que Dylan fica pensativo. De vez em quando por aqui aparecem também aqueles beats um tanto malucos da Costa Oeste que Jack usou como inspiração para seus personagens em «On the Road». O mais imprevisível de todos é Neal Cassady, que acabou de sair da prisão, mas também aparecem com frequência Gary Snyder e Lawrence Ferlinghetti.
No Cedar Tavern não querem mais vê-los desde que Kerouac, completamente bêbado, numa noite urinou num cinzeiro diante de toda a clientela. Seus amigos o colocaram no carro e como sempre levou duas horas para chegar a Northport, em Long Island, onde por algum misterioso motivo Jack insiste em morar, apesar de passar todo o tempo em Manhattan.
Há outro ex-cliente incômodo do Cedar Tavern que havia decidido morar em Long Island, ainda mais longe que Kerouac. Lá no fundo de East Hampton, quase no meio do oceano. Era outra cabeça quente, mas nestas noites de 1961 dele não resta senão a memória. Morreu há cinco anos, batendo com o carro contra uma árvore ao longo de uma daquelas estradas à beira-mar, bêbado como sempre. Os amigos que se encontram no Cedar ainda se contam uns aos outros aquela noite em que Jackson Pollock foi expulso do local por ter arrombado a porta do banheiro durante mais uma briga. Agora os do seu círculo, os expressionistas abstratos, tornaram-se quase o establishment aqui no Village. São famosos, expõem no MoMA, mas ainda vêm à noite circular por essas ruas e se misturar com os novos talentos. Pollock não está mais, mas há Mark Rothko, que já é célebre — foi convidado inclusive para a cerimônia de posse do presidente Kennedy. Há Willem De Kooning, que tem seu estúdio a dois passos do Cedar Tavern, no número 827 da Broadway, e muitas vezes as noites terminam lá, bebendo no meio de suas telas. Outros dois membros fixos do pequeno grupo de pintores são Robert Rauschenberg e Jasper Johns, que moram juntos e dizem ser amantes: tinham um estúdio na Pearl Street, mas era um prédio em ruínas e foi demolido — agora dividem outro em dois andares na Front Street, sob a ponte do Brooklyn.
De vez em quando ao grupo se juntam Clement Greenberg e Harold Rosenberg, os críticos que os «inventaram», e às vezes aparece também Leo Castelli, seu Lorenzo, o Magnífico, o galerista mecenas que os fez decolar com as exposições em sua townhouse no Upper East Side, na Septuagésima Sétima rua.
Ao redor deles se agitam jovens artistas que se esforçam para emergir e tomar o lugar dos grandes da pintura, mas ainda estão dando seus primeiros passos. Frequentam os mesmos locais e de vez em quando trocam algumas palavras com a geração de Pollock, mas em seus estúdios já estão inventando algo novo, pop, sensacional. Dois deles, em particular, começam a se destacar e Leo Castelli já os notou: se chamam Andy Warhol e Roy Lichtenstein.
E então há ela, que você encontra em todos os locais frequentados pelos artistas e escritores que importam, está emergindo com suas telas e suas exposições. É ao mesmo tempo a musa e a rainha do Village. Seu nome é Ruth Kligman e aos 31 anos já é uma sobrevivente. Era a namorada de Pollock, que tinha vinte anos mais que ela e perdeu a cabeça por Ruth ao encontrá-la numa exposição, destruindo definitivamente a união com Lee Krasner. Ruth estava com uma amiga no carro de Pollock naquele dia, o dia do acidente fatal. Só ela saiu viva, com algumas fraturas. Agora está com De Kooning e nem todos apreciaram vê-la ao lado do rival de Jackson apenas um ano após o acidente. O poeta Frank O’Hara lhe deu um apelido que muitos sussurram quando a veem passar na rua: ela é a «death car girl».
Mas Ruth não liga, há algum tempo é vista circulando também com Jasper Johns e as pessoas do Village não entendem mais se ele é gay ou não. Ela se parece com Elizabeth Taylor e os jovens pintores fazem fila para fazer seu retrato. Agora também Andy Warhol circula ao redor dela fascinado — eles acabarão por se frequentar por anos, enchendo diários com frases dedicadas um ao outro. Mais dois anos e Ruth abrirá sua galeria no Village, expondo entre outras as obras de Warhol.
Durou pouquíssimo. Logo chegariam os tiros de Dallas contra JFK, Dylan sacudiria o festival folk de Newport escolhendo a guitarra elétrica, de Londres chegaria a revolução dos Beatles e em breve a guerra no Vietnã tornaria tudo mais sombrio. A gentrificação transformou o Village e daquela época pouco resta, mas o mundo está cheio de testemunhos daquele Renascimento que fez de Nova York uma nova Florença.
Por Marco Bardazzi.

