Era um garoto que, como eu, amava os R.E.M. e o Nirvana Por Nicola Lagiola
Frame de Twin Peaks, 1990. Série de David Lynch.
Em fevereiro de 1991, aparece na MTV (naquele momento, a porta de entrada para a celebridade musical) o videoclipe de uma banda que surgira dez anos antes na cena universitária de Athens, Geórgia, e que permanecera até então um fenômeno de culto. O vídeo se inspira em Caravaggio, mas é a canção, embora cativante, que se revela anômala demais para aspirar aos primeiros lugares das paradas. O bandolim prevalece sobre a guitarra elétrica; em contraposição às suntuosas produções da década anterior, o ouvinte tem a sensação de ser arrastado para os territórios de um folk-rock arcaico e nervoso. Sobretudo, não existe um refrão canônico. A melodia é circular, apoia-se em uma progressão de acordes que nunca explode, trazendo lentamente para o primeiro plano, a partir da tensão gerada, um traço existencial desconhecido pelas poéticas do pop, do heavy metal e do hip hop de então: a vulnerabilidade.
Mesmo sem os requisitos, «Losing My Religion», dos R.E.M. (e Out of Time, o álbum de onde foi retirada), torna-se um sucesso mundial. Nem sete meses depois, chega outro choque, mais desestabilizador. Sempre na MTV, começa a passar o single de uma banda desconhecida de Aberdeen, cuja produção do primeiro disco custara 600 dólares. Se os R.E.M. emergiam de claros-escuros caravaggescos, o Nirvana parece envolto na estética de um rigoroso desinteresse: suéteres de segunda mão, nenhum efeito especial, nada de neon, maquiagem ou modelos. Pelo contrário, dois símbolos tranquilizadores dos Estados Unidos, as líderes de torcida e o ginásio escolar, são radicalmente subvertidos.
«Smells Like Teen Spirit» avança com seu som sujo e pesado, surgido das misturas da cena alternativa de Seattle, mas eleva-se sobre uma estrutura pop fenomenal: os versos são sussurrados sobre uma guitarra limpa antes que o refrão (este sim, inesquecível) exploda em uma fogueira de raiva e distorção. Eu tinha dezessete anos e ficava diante da TV pensando, estupidamente: «vencemos».
Passei a adolescência imerso em fenômenos underground de música, cinema, quadrinhos e literatura; ver subitamente essa preciosa marginalidade conquistar o centro da cena encheu-me de orgulho. Após a idiotice dos anos oitenta, os artistas tomavam o Palácio de Inverno.
Nirvana, 1993. Fotografia de Stephen Sweet.
Eu não tinha entendido que aquele beijo da MTV era o beijo da morte. O mainstream estava se tornando uma «máquina macia» tão eficiente a ponto de digerir as manifestações mais estranhas e abrasivas da cena cultural para transformá-las em produto («Teenage angst has paid off well / Now I’m bored and old», cantaria Kurt Cobain no álbum seguinte, antes de se suicidar). O Muro de Berlim caíra há pouco, o mundo dividido em dois blocos não existia mais, havia quem falasse em fim da História, embora a guerra civil na Iugoslávia sugerisse o contrário, e essa «greve de acontecimentos» pareceu um contexto propício para levar uma certa ideia de arte, e de mundo, e de vida, à atenção geral.
A década transcorreu entre experimentos corajosos e tentativas de assimilação. Em 1990, explodira «Twin Peaks»; ainda hoje surpreende pensar como uma série tão audaz foi capaz de conquistar instantaneamente milhões de espectadores. Houve a primeira temporada de «Os Simpsons». Em 1992, o Prêmio Pulitzer foi atribuído a um desenhista de quadrinhos chamado Art Spiegelman, que com Maus narrava a Shoah misturando Esopo e Kafka. Nos Estados Unidos, tornam-se clássicos contemporâneos romances complicadíssimos, angustiantes e nada complacentes (Infinite Jest, Underworld, Pastoral Americana, American Psycho), enquanto o cinema independente vive uma nova juventude. Em 1994, «Pulp Fiction» pareceria mudar definitivamente a linguagem cinematográfica.
Do outro lado do oceano, explode o britpop. Na Itália, é o momento das posse, dos centros sociais e do rock alternativo; um teatro de pesquisa refinado e perturbador como o da Societas Raffaello Sanzio torna-se um fenômeno internacional. Da Dinamarca chega o manifesto Dogma, da Islândia Björk e os Sigur Rós. De repente, tudo o que até o dia anterior parecera anômalo, contracorrente ou excessivo recebe a sua consagração. «Vem como você é»: o mal-estar já não é motivo de exclusão, e ainda não é conteúdo.
Deste «tempo do meio», Trainspotting é uma boa síntese. Vidas à deriva e geografias isoladas conquistam o proscênio; a cultura alternativa do passado alia-se à do presente, e vomitar no pior banheiro da Escócia parece mais digno do que presidir um conselho de administração. «Escolha a vida, escolha um trabalho, escolha uma carreira...»
Que tipo de adultos essa cena cultural gerou? Não destruidores, nem sequer marginais. No melhor dos casos, pessoas conscientes o suficiente para entender que o conformismo do mainstream era deprimente e o liberalismo selvagem uma armadilha, mas, ao mesmo tempo, indivíduos pouco habituados ao conflito e incapazes de compreender como o poder realmente funciona.
São os rapazes e moças que, na Itália, ao final da década, seriam massacrados no G8 de Gênova. Poucos tiveram imaginação suficiente para prever que as instituições se comportariam de forma tão infame. Uma insídia mais sutil não vestia farda, mas escondia a garra atrás de sorrisos democráticos e convites à criatividade. Como acreditar que a MTV seria conquistada pelo grunge, e não o contrário? Como não desconfiar desde cedo de Steve Jobs, Bill Gates, Elon Musk?
«Quando ouço falar de cultura, ponho a mão na carteira», faz Jean-Luc Godard dizer a um produtor em O Desprezo. Os companheiros de estrada eram bons, mas aquela mão estendida não oferecia liberdade.
Escolha Facebook, Twitter, Instagram e mil outras formas de vomitar a sua bile contra desconhecidos. Muitos adultos do presente, um like no lugar do dólar, podem talvez se reconhecer no bebê fisgado pelo anzol na capa de Nevermind.
Por Nicola Lagiola.
