Playboy, setembro de 1962 Miles Davis: uma conversa franca com o maior iconoclasta do mundo do jazz

Playboy, setembro de 1962 Miles Davis: uma conversa franca com o ma... Por Alex Haley

«Não ligo para o que os críticos dizem sobre mim, seja bom ou ruim. O crítico mais duro que tenho sou eu mesmo... e sou vaidoso demais para tocar algo que acho ruim.»

Um instantâneo datado de 1961: Miles Davis, John Coltrane e a Nova York resplandecente do grande jazz

Um instantâneo datado de 1961: Miles Davis, John Coltrane e a Nova ... Por Marco Bardazzi

Estavam todos lá: Bob Dylan e Joan Baez, a geração Beat de Kerouac e Ginsberg, Mark Rothko e até um jovem Warhol. O Village como Florença no Renascimento. Um afresco irrepetível

Por que queremos uma política cada vez mais autoritária?

Por que queremos uma política cada vez mais autoritária? Por Vittorio Lingiardi e Tommaso Boldrini

Nos últimos anos, a confiança na democracia caiu em muitos países ocidentais, enquanto cresce a atração por líderes e soluções autoritárias. Uma possível chave de leitura vem da psicanálise: a «posição esquizo-paranoide» descrita por Melanie Klein, que simplifica o mundo entre bons e maus e torna mais sedutora a promessa de proteção dos líderes fortes.

Eu me lembro de quando fui feliz

Eu me lembro de quando fui feliz Por Antonella Lattanzi

«Doutora, escreva, escreva o que é que não vai bem aqui e do que precisaríamos». As detentas falam dos filhos e de quanto tempo levam para secar o cabelo. O rapaz que antes não gaguejava, aquele que se lembra da sua primeira mentira e da carícia áspera do pai. O dialeto, a infância, a raiva. Dentro da prisão para respirar ar de liberdade.  

Aqueles que partem e aqueles que ficam

Aqueles que partem e aqueles que ficam Por Sara Mokhavat

Era difícil imaginar que em breve eu estaria em outro país, longe dessa guerra

Nesta disputa de restituição da era nazista, o foco se volta para uma vaca desaparecida

Nesta disputa de restituição da era nazista, o foco se volta para u... Por Catherine Hickley

Uma família está lutando para reaver uma pintura que acreditava ser de Rubens. Mas um especialista afirma que é uma cópia, pois não inclui, como no original, a vaca fazendo xixi

Os novos murais em Teerã. Entre ironia e propaganda

Os novos murais em Teerã. Entre ironia e propaganda Por Siegmund Ginzberg

Os grafites que florescem em cada esquina são diferentes dos de antigamente: agradam ao regime. Parece quase que Banksy chegou ao Irã.

Os acampamentos que prometem transformar você — ou seu filho — em um Macho Alfa

Os acampamentos que prometem transformar você — ou seu filho — em u... Por Charles Bethea

No Men of War Crucible, você rasteja como um urso por rios. Na Warrior Week, você cava sua própria sepultura. No Squire Program, seu filho adolescente também pode participar

Apostila sobre o nada

Apostila sobre o nada Por Benjamin Ivry

Emil Cioran conversa com Benjamin Ivry


Conversa com Massimo Cacciari

Em conversa com Pedro Fonseca, registrada por Tommaso Monini, um dos mais influentes pensadores europeus analisa a crise do sistema democrático e o futuro da política.

O acerto de contas

O acerto de contas Por Mona Ali

Ormuz e o fim da hegemonia americana

Era um garoto que, como eu, amava os R.E.M. e o Nirvana

Era um garoto que, como eu, amava os R.E.M. e o Nirvana Por Nicola Lagiola

O sucesso da cultura contracorrente. O grunge que entra no ar pela MTV. O cinema independente, «Twin Peaks» e as últimas ilusões de rebelião. Cartões-postais antológicos dos anos noventa. Quando tudo parecia possível.

Comunidade judaica de Teerã resiste após bombardeio israelense destruir sinagoga

Comunidade judaica de Teerã resiste após bombardeio israelense dest... Por Mohammad Mohsenifar, em Teerã, e Stefanie Glinski.

Membros da sinagoga Rafi’ Nia celebraram a Pessach sob ataque aéreo horas antes de o templo ser atingido

O Irã invisível

O Irã invisível Por Pegah Moshir Pour

Assistimos a uma remoção sistemática da hierarquia de valores, em que certas vidas podem ser colocadas em pausa — e aceitar isso legitima uma ordem em que a liberdade se torna negociável.

Machos demais

Machos demais Por Annalena Benini

Músculos, dinheiro e ódio pelas mulheres («estúpidas», «lava-pratos» e «necessitadas de um ditador»). O manifesto dos influenciadores violentos e misóginos no documentário de Louis Theroux, «Dentro da manosfera». E o intelectual progressista se cala.

A República Islâmica não esmagou a determinação do povo iraniano. Esta guerra também não o fará

A República Islâmica não esmagou a determinação do povo iraniano. E... Por Azar Nafisi

A vida e a liberdade são partes integrantes do espírito iraniano. Mesmo em meio a estes dias sombrios, tenho esperança de que o conflito possa libertar o meu povo.

O que os astronautas veem que Trump não consegue ver

O que os astronautas veem que Trump não consegue ver Por Gal Beckerman

As imagens da Terra da missão Artemis II transmitem a sensação de que a humanidade está unida. Se ao menos um presidente belicoso pudesse sentir o mesmo.

«O Irã era o nosso Hogwarts»: minha infância entre Teerã e Essex

«O Irã era o nosso Hogwarts»: minha infância entre Teerã e Essex Por Arianne Shahvisi

Crescer em Essex fazia meus verões no Irã parecerem interlúdios mágicos da realidade — mas era um feitiço que sempre acabava quebrado

Jacques Rancière, filósofo: «Hoje, o povo do ressentimento fabricado pelos bilionários é quem domina a cena»
08.09.2025

Jacques Rancière, filósofo: «Hoje, o povo do ressentimento fabricado pelos bilionários é quem domina a cena» Por Nicolas Truong

Registro da revolta estudantil e operária de Maio de 68, Paris. Foto de Georges Melet.

 

Nascido em 1940 em Argel, Jacques Rancière é um filósofo da emancipação. Aluno de Louis Althusser (1918-1990), mestre de toda uma geração intelectual na École normale supérieure, começou a lecionar na Universidade de Vincennes em 1969, e romperia com o marxismo científico em La Leçon d’Althusser (Gallimard, 1974).

Sua imersão nos arquivos da história e do pensamento operário na França o levou a escrever La Nuit des prolétaires. Archives du rêve ouvrier (Fayard, 1981), obra que orientaria grande parte de seus trabalhos: a emancipação dos dominados não repousa na revelação da ordem que os oprime, mas na ruptura com os lugares que lhes são atribuídos e com a oposição entre manuais e intelectuais.

Entre política e estética, literatura e cinema, Jacques Rancière forja um pensamento da democracia radical, do qual dão testemunho O Ódio à Democracia (Boitempo, 2014) e O Desentendimento (Editora 34, 2018).

O momento político que atravessamos parece dominado pela ascensão do nacionalismo identitário. Como um filósofo que foi movido pelos movimentos de emancipação dos anos 1960-1970 percebe o advento dessa contra-revolução mundial?
Minha reflexão se formou justamente nesses anos em que tudo parecia possível: reinventar o marxismo com Louis Althusser, contribuir para um novo mundo de liberdade e igualdade na dinâmica criada por Maio de 68, ressuscitar toda uma história da emancipação com Les Révoltes logiques entre 1975 e 1981, revista que cofundei com os filósofos Jean Borreil e Geneviève Fraisse.

Por isso me é difícil respirar a atual atmosfera de desigualdade e servidão. Não se trata de ilusões perdidas. É uma degradação efetiva das possibilidades de viver, experimentar, pensar e criar. O impulso permanece, mas se adapta com dificuldade a um tempo em que se trata mais de resistir do que de inventar.

Por que os progressistas não viram chegar esse movimento?
Na realidade, a contra-revolução se fez lentamente, por etapas. Foi um tanto tarde que vimos se montar as peças do quebra-cabeça: a financeirização da economia, a deslocalização das empresas, a destruição das formas de solidariedade social e a captura das vidas, privatizadas nas novas formas de submissão ditadas pela chamada economia «imaterial».

Não se percebeu o movimento pelo qual a lógica capitalista da globalização se tornava vontade de dominação absoluta dos corpos e das mentes, e a busca pela redução dos custos vinha convergir com as ideologias identitárias e a paixão de eliminar os indesejáveis.

Eles assim costuraram sob medida as novas vestes do racismo e da islamofobia para as forças emergentes da reação, contribuíram para o desenvolvimento de uma cultura do ódio que lhes abriu caminho, e construíram a retórica que permite condenar como antissemita e «islamo-esquerdista» qualquer tentativa de resistência a essa ofensiva reacionária.

Por que, segundo o senhor, os modelos explicativos da «razão progressista» já não funcionam para compreender o que acontece?
Para a razão progressista, os fenômenos que a contradizem vêm sempre das populações atrasadas, dos retardatários ou esquecidos do progresso. É sempre «de baixo» que viria o mal: para ela, o fascismo é reação de camponeses atrasados, de pequenos burgueses ultrapassados pelo curso da história ou de operários deixados para trás pelos progressos técnicos; Hitler teria sido levado ao poder pela massa de desempregados que tomava as ruas, Trump seria o representante dos white trash [brancos desfavorecidos] das regiões desindustrializadas etc.

Mas Hitler foi chamado ao poder pelos círculos dirigentes alemães, e a atual onda fascistizante foi orquestrada por bilionários desejosos de suprimir todos os freios à sua dominação e que forjaram, com os meios de comunicação que criaram ou compraram, o povo que os aclama em retorno.

Pois «o povo» não existe como uma realidade em si. Há uma multiplicidade de maneiras de fazer povo que se enfrentam: constitui-se povo por combates comuns ou atos de solidariedade, mas também por ressentimentos compartilhados e opiniões manipuladas. E hoje é o povo do ressentimento fabricado pelos bilionários que domina a cena.

Frame de Os sonhadores, 2003. Filme de Bernardo Bertolucci.

 

Numa conferência proferida na Maison de la Poésie, em Paris, intitulada «A força dos sentimentos», em 14 de maio, o senhor afirmou que os pressupostos da ciência social são solidários com a ordem desigualitária do mundo. O que o trumpismo e os conservadores chamam de «wokismo» seriam duas faces de uma mesma moeda?Evidentemente não falei de duas faces de uma mesma moeda. Apenas sublinhei a evolução historicamente constatável da ciência social. Outrora, ela propunha uma análise dos fenômenos sociais que queria não apenas denunciar as desigualdades, mas também fornecer meios de combatê-las, revolucionários ou reformistas.

O fato é que, embora goste de se declarar crítica, ela abandonou progressivamente essa ambição. Descreve todos os aspectos da dominação. Eventualmente os denuncia. Mas aí termina seu poder. No limite, limita-se a fornecer um sentimento de saber que é simplesmente o sentimento de ser superior àqueles que não sabem. E é aí que os que zombam das ignorâncias e tolices de Trump mobilizam o mesmo sentimento de superioridade que o próprio Trump nutre em relação aos imbecis que não sabem ganhar dinheiro.

Nesse sentido, é um ponto de aproximação muito específico. Mas talvez também seja um ponto decisivo: parte-se do pressuposto da igualdade ou do pressuposto da desigualdade. E a ciência social dominante parte claramente do segundo: não do que as pessoas comuns podem, mas do que elas não podem.

É por essa razão que a literatura, como os contos de Tchekhov, a que o senhor dedicou um recente livro, Au loin la liberté (La Fabrique, 2024), é tão importante? E por que ela permite escapar ao que o senhor chama de «tristeza do saber»?
A «tristeza do saber» é a queda da fé cientificista. Sabemos tudo sobre o modo como a dominação funciona. Mas esse saber já não dá nenhuma arma contra ela. Incita-nos, antes, a nos submeter à necessidade das coisas, com a única consolação de saber o que ignoram os ignorantes e de desprezar os poderes que nos desprezam.

Os relatos de Tchekhov podem nos ajudar a sair dessa lógica da submissão. Ele recusa justamente as grandes cadeias causais que fornecem as razões da servidão, e as teorias que dizem que seremos livres quando a própria base da sociedade tiver mudado. Contra a corrente do cientificismo de seu tempo, ele pensa que a servidão é causa de si mesma. Ela é, antes de tudo, o medo do território desconhecido da liberdade, o aquiescimento a um curso do tempo em que já se sabe de antemão o que se deve fazer.

Tchékhov nos diz que a liberdade talvez esteja distante, mas que, dessa distância, ela nos acena e nos chama a mudar de vida. Ele pinta, assim, personagens em circunstâncias nas quais sua vida poderia se transformar se dessem o passo decisivo. E, mesmo quando se furtam a esse chamado da liberdade, ele continua a acompanhá-los, a tratá-los como indivíduos que poderiam ser livres. Nisso, ele se opõe radicalmente ao humor do desprezo que, hoje mais do que nunca, caminha de mãos dadas com o medo. Ele nos ajuda a compreender que o poder de mudar a vida começa sempre por uma certa recusa do saber.

Não vivemos também um momento de criatividade intelectual e de experimentações igualitárias, sobretudo no campo do movimento ecologista?
De fato, o ativismo ecológico veio dar continuidade e reforçar a tradição alternativa de criação de novas maneiras de viver, de trabalhar e de habitar, de cultivar a terra e de se alimentar, de partilhar riquezas e responsabilidades. E a reflexão se estendeu a todos os domínios para repensar as formas da dominação e da emancipação.

Mas não creio que as análises parciais que daí nasceram tenham permitido repensar uma inteligência global do que nos acontece, nem uma capacidade coletiva de forjar outro futuro. E as grandes sínteses que, como a de Bruno Latour [1947-2022], vieram ocupar o lugar da síntese marxista não criaram nenhuma dinâmica política capaz de combater a dominação.

Hoje assistimos a uma inversão significativa. As lutas dos dois séculos anteriores haviam levado à conclusão de que as pequenas comunidades utópicas, que queriam mudar a vida imediatamente, estavam condenadas ao fracasso e que apenas a perspectiva da transformação global era realista. Hoje, pelo contrário, tem-se a impressão de que apenas as pequenas comunidades oferecem possibilidades reais de mudança, e que é a ideia de uma transformação global que se tornou uma utopia.

O que podem esperar aqueles que desejam hoje se opor a essa regressão nacionalista e identitária, quando o horizonte parece fechado?
Sempre disse que a esperança depende menos de uma imagem da meta a ser alcançada do que da confiança nascida das energias do presente. Só vejo horror quando considero as palavras e ações dos atuais senhores do mundo, mas também vejo em toda parte homens e mulheres que querem viver como iguais, que afirmam o direito igual de todos os seres humanos à consideração e que, ao mesmo tempo, se empenham em lutar contra a injustiça dominante, socorrer suas vítimas e zelar para que a Terra continue habitável para as gerações futuras.

Vejo generosidade, invenção e coragem, que se manifestam sob mil formas. O pensador da emancipação intelectual Joseph Jacotot [1770-1840] acreditava que a mecânica social estava condenada à desigualdade, mas que era possível que todos os indivíduos dessa sociedade desigual vivessem como iguais. Não faço nenhum prognóstico sobre o futuro da sociedade, mas penso que esse paradoxo da emancipação é mais atual do que nunca.