Jacques Rancière, filósofo: «Hoje, o povo do ressentimento fabricado pelos bilionários é quem domina a cena» Por Nicolas Truong
Registro da revolta estudantil e operária de Maio de 68, Paris. Foto de Georges Melet.
Nascido em 1940 em Argel, Jacques Rancière é um filósofo da emancipação. Aluno de Louis Althusser (1918-1990), mestre de toda uma geração intelectual na École normale supérieure, começou a lecionar na Universidade de Vincennes em 1969, e romperia com o marxismo científico em La Leçon d’Althusser (Gallimard, 1974).
Sua imersão nos arquivos da história e do pensamento operário na França o levou a escrever La Nuit des prolétaires. Archives du rêve ouvrier (Fayard, 1981), obra que orientaria grande parte de seus trabalhos: a emancipação dos dominados não repousa na revelação da ordem que os oprime, mas na ruptura com os lugares que lhes são atribuídos e com a oposição entre manuais e intelectuais.
Entre política e estética, literatura e cinema, Jacques Rancière forja um pensamento da democracia radical, do qual dão testemunho O Ódio à Democracia (Boitempo, 2014) e O Desentendimento (Editora 34, 2018).
O momento político que atravessamos parece dominado pela ascensão do nacionalismo identitário. Como um filósofo que foi movido pelos movimentos de emancipação dos anos 1960-1970 percebe o advento dessa contra-revolução mundial?
Minha reflexão se formou justamente nesses anos em que tudo parecia possível: reinventar o marxismo com Louis Althusser, contribuir para um novo mundo de liberdade e igualdade na dinâmica criada por Maio de 68, ressuscitar toda uma história da emancipação com Les Révoltes logiques entre 1975 e 1981, revista que cofundei com os filósofos Jean Borreil e Geneviève Fraisse.
Por isso me é difícil respirar a atual atmosfera de desigualdade e servidão. Não se trata de ilusões perdidas. É uma degradação efetiva das possibilidades de viver, experimentar, pensar e criar. O impulso permanece, mas se adapta com dificuldade a um tempo em que se trata mais de resistir do que de inventar.
Por que os progressistas não viram chegar esse movimento?
Na realidade, a contra-revolução se fez lentamente, por etapas. Foi um tanto tarde que vimos se montar as peças do quebra-cabeça: a financeirização da economia, a deslocalização das empresas, a destruição das formas de solidariedade social e a captura das vidas, privatizadas nas novas formas de submissão ditadas pela chamada economia «imaterial».
Não se percebeu o movimento pelo qual a lógica capitalista da globalização se tornava vontade de dominação absoluta dos corpos e das mentes, e a busca pela redução dos custos vinha convergir com as ideologias identitárias e a paixão de eliminar os indesejáveis.
Eles assim costuraram sob medida as novas vestes do racismo e da islamofobia para as forças emergentes da reação, contribuíram para o desenvolvimento de uma cultura do ódio que lhes abriu caminho, e construíram a retórica que permite condenar como antissemita e «islamo-esquerdista» qualquer tentativa de resistência a essa ofensiva reacionária.
Por que, segundo o senhor, os modelos explicativos da «razão progressista» já não funcionam para compreender o que acontece?
Para a razão progressista, os fenômenos que a contradizem vêm sempre das populações atrasadas, dos retardatários ou esquecidos do progresso. É sempre «de baixo» que viria o mal: para ela, o fascismo é reação de camponeses atrasados, de pequenos burgueses ultrapassados pelo curso da história ou de operários deixados para trás pelos progressos técnicos; Hitler teria sido levado ao poder pela massa de desempregados que tomava as ruas, Trump seria o representante dos white trash [brancos desfavorecidos] das regiões desindustrializadas etc.
Mas Hitler foi chamado ao poder pelos círculos dirigentes alemães, e a atual onda fascistizante foi orquestrada por bilionários desejosos de suprimir todos os freios à sua dominação e que forjaram, com os meios de comunicação que criaram ou compraram, o povo que os aclama em retorno.
Pois «o povo» não existe como uma realidade em si. Há uma multiplicidade de maneiras de fazer povo que se enfrentam: constitui-se povo por combates comuns ou atos de solidariedade, mas também por ressentimentos compartilhados e opiniões manipuladas. E hoje é o povo do ressentimento fabricado pelos bilionários que domina a cena.
Frame de Os sonhadores, 2003. Filme de Bernardo Bertolucci.
Numa conferência proferida na Maison de la Poésie, em Paris, intitulada «A força dos sentimentos», em 14 de maio, o senhor afirmou que os pressupostos da ciência social são solidários com a ordem desigualitária do mundo. O que o trumpismo e os conservadores chamam de «wokismo» seriam duas faces de uma mesma moeda?Evidentemente não falei de duas faces de uma mesma moeda. Apenas sublinhei a evolução historicamente constatável da ciência social. Outrora, ela propunha uma análise dos fenômenos sociais que queria não apenas denunciar as desigualdades, mas também fornecer meios de combatê-las, revolucionários ou reformistas.
O fato é que, embora goste de se declarar crítica, ela abandonou progressivamente essa ambição. Descreve todos os aspectos da dominação. Eventualmente os denuncia. Mas aí termina seu poder. No limite, limita-se a fornecer um sentimento de saber que é simplesmente o sentimento de ser superior àqueles que não sabem. E é aí que os que zombam das ignorâncias e tolices de Trump mobilizam o mesmo sentimento de superioridade que o próprio Trump nutre em relação aos imbecis que não sabem ganhar dinheiro.
Nesse sentido, é um ponto de aproximação muito específico. Mas talvez também seja um ponto decisivo: parte-se do pressuposto da igualdade ou do pressuposto da desigualdade. E a ciência social dominante parte claramente do segundo: não do que as pessoas comuns podem, mas do que elas não podem.
É por essa razão que a literatura, como os contos de Tchekhov, a que o senhor dedicou um recente livro, Au loin la liberté (La Fabrique, 2024), é tão importante? E por que ela permite escapar ao que o senhor chama de «tristeza do saber»?
A «tristeza do saber» é a queda da fé cientificista. Sabemos tudo sobre o modo como a dominação funciona. Mas esse saber já não dá nenhuma arma contra ela. Incita-nos, antes, a nos submeter à necessidade das coisas, com a única consolação de saber o que ignoram os ignorantes e de desprezar os poderes que nos desprezam.
Os relatos de Tchekhov podem nos ajudar a sair dessa lógica da submissão. Ele recusa justamente as grandes cadeias causais que fornecem as razões da servidão, e as teorias que dizem que seremos livres quando a própria base da sociedade tiver mudado. Contra a corrente do cientificismo de seu tempo, ele pensa que a servidão é causa de si mesma. Ela é, antes de tudo, o medo do território desconhecido da liberdade, o aquiescimento a um curso do tempo em que já se sabe de antemão o que se deve fazer.
Tchékhov nos diz que a liberdade talvez esteja distante, mas que, dessa distância, ela nos acena e nos chama a mudar de vida. Ele pinta, assim, personagens em circunstâncias nas quais sua vida poderia se transformar se dessem o passo decisivo. E, mesmo quando se furtam a esse chamado da liberdade, ele continua a acompanhá-los, a tratá-los como indivíduos que poderiam ser livres. Nisso, ele se opõe radicalmente ao humor do desprezo que, hoje mais do que nunca, caminha de mãos dadas com o medo. Ele nos ajuda a compreender que o poder de mudar a vida começa sempre por uma certa recusa do saber.
Não vivemos também um momento de criatividade intelectual e de experimentações igualitárias, sobretudo no campo do movimento ecologista?
De fato, o ativismo ecológico veio dar continuidade e reforçar a tradição alternativa de criação de novas maneiras de viver, de trabalhar e de habitar, de cultivar a terra e de se alimentar, de partilhar riquezas e responsabilidades. E a reflexão se estendeu a todos os domínios para repensar as formas da dominação e da emancipação.
Mas não creio que as análises parciais que daí nasceram tenham permitido repensar uma inteligência global do que nos acontece, nem uma capacidade coletiva de forjar outro futuro. E as grandes sínteses que, como a de Bruno Latour [1947-2022], vieram ocupar o lugar da síntese marxista não criaram nenhuma dinâmica política capaz de combater a dominação.
Hoje assistimos a uma inversão significativa. As lutas dos dois séculos anteriores haviam levado à conclusão de que as pequenas comunidades utópicas, que queriam mudar a vida imediatamente, estavam condenadas ao fracasso e que apenas a perspectiva da transformação global era realista. Hoje, pelo contrário, tem-se a impressão de que apenas as pequenas comunidades oferecem possibilidades reais de mudança, e que é a ideia de uma transformação global que se tornou uma utopia.
O que podem esperar aqueles que desejam hoje se opor a essa regressão nacionalista e identitária, quando o horizonte parece fechado?
Sempre disse que a esperança depende menos de uma imagem da meta a ser alcançada do que da confiança nascida das energias do presente. Só vejo horror quando considero as palavras e ações dos atuais senhores do mundo, mas também vejo em toda parte homens e mulheres que querem viver como iguais, que afirmam o direito igual de todos os seres humanos à consideração e que, ao mesmo tempo, se empenham em lutar contra a injustiça dominante, socorrer suas vítimas e zelar para que a Terra continue habitável para as gerações futuras.
Vejo generosidade, invenção e coragem, que se manifestam sob mil formas. O pensador da emancipação intelectual Joseph Jacotot [1770-1840] acreditava que a mecânica social estava condenada à desigualdade, mas que era possível que todos os indivíduos dessa sociedade desigual vivessem como iguais. Não faço nenhum prognóstico sobre o futuro da sociedade, mas penso que esse paradoxo da emancipação é mais atual do que nunca.
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