Léxico do mundo: a identidade em exílio Por Francesca Mannocchi
Colheita de açafrão em Herat, 2025. Fotografia de Mustafa Noori.
Há palavras que nascem longe de casa e que trazem em si o som do afastamento. Exílio é uma delas: uma palavra é uma corda esticada entre aquilo que se deixa e aquilo que não se alcança. É um limiar linguístico: um passo fora do mundo e, ao mesmo tempo, um passo dentro da própria verdade.
A palavra exílio evoca outra: fora. Fora da própria casa, fora dos próprios afetos, fora da dimensão emotiva e sentimental da própria identidade. Mas ninguém que tenha realmente vivido o exílio se sente apenas fora: é como habitar uma ferida que continua a pulsar, uma fronteira que se desloca a cada dia. O exílio é o lugar da impossibilidade: não se pode voltar atrás, mas tampouco pertencer por completo ao que vem depois. É uma condição suspensa, e talvez por isso tão profundamente contemporânea.
Nos últimos anos, vi muitas formas de exílio. Em Herat, no Afeganistão, encontrei uma mulher que tinha sido professora de literatura. Ensinava versos de Hafez e Rumi, até que a escola foi fechada. Agora dá aula em segredo, numa casa de paredes rachadas, para cinco meninas que se sentam no chão e escrevem com giz em pedaços de papelão. «Estou em exílio na minha cidade», disse-me. Não buscava piedade, mas precisão. O exílio, para ela, não era partir: era permanecer num lugar que já não a reconhece. Vivia dentro de uma fronteira invisível, uma fronteira feita de silêncios. E, no entanto, cada vez que pronunciava um verso, a língua parecia abrir uma fresta de liberdade. Em Amã, conheci Yasser, um refugiado palestino. Seu pai tinha nascido em Haifa e nunca mais voltara. Ele trabalha numa tipografia no bairro de Jabal al-Weibdeh, entre casas cor de ocre e fios elétricos que se entrelaçam como ramos secos.
Tomamos um café numa varanda voltada para o oeste, em direção àquela linha distante que para ele é apenas um horizonte. «Eu não sei onde fica a minha casa», disse-me. «Mas todos os dias, imprimindo palavras, tento reconstruir uma.»
Yasser não falava de nostalgia, mas de identidade: de como o exílio se torna uma forma de resistência. «Quando você nasce refugiado», disse-me, «sua língua se torna sua terra. As palavras são a única pátria que não podem te confiscar.»
Amã, Jordania, 2025. Fotografia de Ibrahim Nabeel.
Em ambos os encontros, distantes no tempo e no espaço, senti a mesma coisa: o exílio como condição de lucidez. Longe do pertencimento forçado, o pensamento se torna mais nítido, mais impiedoso, mais verdadeiro. O exílio te despoja, e nesse despojamento resta apenas o que importa.
Talvez por isso tantas figuras do pensamento moderno sejam exiladas: Ovídio em Tomos, Dante em caminho para lugar nenhum, Hannah Arendt em Nova York, Edward Said em Beirute e depois em Manhattan. Todos entenderam que a distância é uma forma de conhecimento.
Mas não existe apenas o exílio político ou geográfico. Há o exílio interior, aquele de quem permanece e já não se reconhece. De quem é estrangeiro na própria língua, no próprio corpo, no próprio tempo. É a forma mais sutil de exílio: a que não se vê. É a condição de muitas mulheres em países onde a liberdade é um crime, mas também de quem, em sociedades aparentemente livres, se sente excluído do coro unânime da indiferença.
Vivemos num século em que milhões de pessoas perderam a própria casa física, e muitos mais perderam a casa simbólica: a dos valores, das palavras, das relações. O exílio já não é uma exceção: é a condição humana do nosso tempo.
E, contudo, há uma graça secreta no exílio. É a possibilidade de renomear o mundo, de inventar uma nova língua para dizer eu. Marina Tsvetáieva chamava isso de «minha pátria portátil»: uma pátria feita de versos, de lembranças, de fidelidades invisíveis. Quem vive no exílio conhece a nostalgia, mas também a alegria de uma liberdade interior que não se dobra. Todo exilado, visível ou invisível, guarda um saber que o mundo tende a esquecer: que se pode ser inteiro mesmo sem pertencer. Que a identidade não é uma raiz, mas um movimento.
Quando penso novamente na professora de Herat e em Yasser, penso que ambos, à sua maneira, ensinam a mesma lição: que a casa não é um lugar, mas uma relação. Que se pode construir uma pátria no espaço da palavra, no gesto de lembrar, no ato de pensar livremente.
O exílio é uma perda que contém um começo. E talvez, no fim, exílio não seja o contrário de casa, mas o seu prelúdio. É o lugar onde aprendemos a distinguir o que somos daquilo que nos gerou. Num mundo que nos quer enraizados e silenciosos, o exilado é aquele que continua a mover-se, que continua a falar.
O exílio é a prova mais alta da liberdade: a de nunca deixar de buscar um lugar onde a língua e a dignidade ainda possam coincidir.
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