Conversa com Hisham Matar

«As tiranias entendem, em algum nível, que existe um lugar no coração humano e na psique que jamais conseguirão alcançar, e esse lugar é onde a arte está constantemente presente e prosperando.»

Contra o Storytelling

Contra o Storytelling Por Miriam Rasch

Provavelmente, a minha reação alérgica à «história que salva o planeta» decorre justamente da sua pretensão de completude: um conto que desata todos os nós e nos entrega um significado pronto.

Fadada a ser uma tradwife

Fadada a ser uma tradwife Por Olga Khazan

Um casamento pode ser verdadeiramente igualitário?

Uma batalha com meu sangue

Uma batalha com meu sangue Por Tatiana Schlossberg

Quando recebi o diagnóstico de leucemia, meu primeiro pensamento foi que isso não podia estar acontecendo comigo, com a minha família

Bolha da IA: «70% da nuvem é controlada por três empresas americanas», uma conversa com Meredith Whittaker, presidente do Signal

Bolha da IA: «70% da nuvem é controlada por três empresas americana... Por Gilles Gressani

Trata-se de uma ameaça para a segurança e a privacidade no nível da camada das aplicações — sobre as quais se apoiam os exércitos, os governos e as organizações de defesa dos direitos humanos

Dentro do pornô feminista. Entrevista com Erika Lust

Dentro do pornô feminista. Entrevista com Erika Lust Por Elisabetta Moro

A diretora conta vinte anos de trabalho para construir uma alternativa ética e feminista à pornografia mainstream, agora que seus filmes são uma referência internacional para o pornô independente.

Léxico do mundo: a identidade em exílio

Léxico do mundo: a identidade em exílio Por Francesca Mannocchi

Todo exilado, visível ou invisível, guarda um saber que o mundo tende a esquecer: que se pode ser inteiro mesmo sem pertencer.

Ratos de Arte em Nova York

Ratos de Arte em Nova York Por Patti Smith

Encontrando minhas próprias palavras

Uma espiã a bordo. Como Israel infiltrou a flotilha para Gaza

Uma espiã a bordo. Como Israel infiltrou a flotilha para Gaza Por Sacha Biazzo

A agente sueca infiltrada na Freedom Flotilla a serviço de uma organização ligada ao Mossad e ao governo israelense

Ter um namorado é motivo de vergonha agora?

Ter um namorado é motivo de vergonha agora? Por Chanté Joseph

Frame do filme Como perder um homem em 10 dias (2003).   Se alguém ousa dizer «meu namo–» nas redes sociais, é silenciado na hora. Nada me irrita mais do que seguir alguém só por diversão e, de repente, ver todo o conteúdo dessa pessoa se transformar em algo «meu namorado»-ficado....

Mira Nair — a cineasta que fez da inquietação uma estética

Mira Nair — a cineasta que fez da inquietação uma estética Por John Lahr

Mãe do novo prefeito de Nova York, Nair é uma artista que aprendeu a transformar deslocamento em pertencimento.

O uso das palavras

O uso das palavras Por Natalia Ginzburg

Nos encontramos rodeados por palavras que não nasceram do nosso vivo pensamento, mas que foram fabricadas artificialmente com motivações hipócritas.

Massimo Recalcati: Desejo nos salvar de todas as melancolias

Massimo Recalcati: Desejo nos salvar de todas as melancolias Por Antonio Gnoli

As imagens das coroas de flores preparadas elo pai florista e a precoce consciência da morte. A descoberta de Freud e Sartre

Aritmética do infinito

Aritmética do infinito Por Guido Vitiello

Que sentido faz discutir se a pena deve ser de vinte anos ou de prisão perpétua, diante de um massacre que ultrapassa a escala humana, «não mais do que as grandezas astronômicas e os anos-luz»?

Sem uma mente política

Sem uma mente política Por Natalia Ginzburg

Natalia Ginzburg. Fotografia de Leonardo Cendamo.   Pediram que me candidatasse às eleições, na lista do Partido comunista, e eu aceitei. Logo depois de ter aceitado, me perguntei se não era um ato de extrema presunção da minha parte. Nunca exerci nenhuma espécie de atividade política. Não tenho, e muitas...

Também hoje cuspirei em Hegel

Também hoje cuspirei em Hegel Por Annalena Benini

Cinquenta anos depois de Carla Lonzi, graças a ela e às outras, podemos não nos sentir mais oprimidas. Mas não acabou aí.

Geração Z

Geração Z Por Marco Bardazzi

Parecia imóvel mas em 2012 os Estados Unidos mudavam de face

A literatura pode ser uma forma de resistência

A literatura pode ser uma forma de resistência Por Alex Clark

A autora albanesa de Livre, Lea Ypi, e a romancista turca Elif Shafak discutem a ascensão do populismo, a censura e como os conflitos atuais advêm de traumas não resolvidos do passado.

Anna Karenina, quando você vai embora?
19.03.2025

Anna Karenina, quando você vai embora? Por Annalena Benini

Retrato de Anna Karenina, por Henrich Matveevich Manizer

 

Anora acredita na possibilidade de uma nova vida. Emilia Pérez acredita na possibilidade de uma nova vida. Elisabeth Sparkle («The Substance») acredita na possibilidade de uma nova vida em outro corpo, mais jovem, mais firme, com a pele mais esticada e os lábios mais volumosos. Todas esperam intensamente por algo, confiam na possibilidade de algo que se assemelha a uma redenção e lutam para conquistá-lo, para preservá-lo.

De maneiras até muito modernas, assustadoras, extenuantes, de maneiras que gritam: vai acabar mal, beleza. De formas novas, que o cinema torna épicas e que fazem meu coração disparar toda vez que me sento nessas salas escuras. Emilia, Elisabeth Sparkle e Sue, Anora: entre elas, apenas Anora, a trabalhadora do sexo do Brooklyn que entende a língua de seu jovem amante oligarca por causa de uma avó russa, mas não tem a menor intenção de falar russo, escapará do final revisitado de Anna Karenina. O final oitocentista no qual, de qualquer forma, no fim, a garota sucumbe.

Anna Karenina, Madame Bovary, todas as mulheres que se rebelaram contra uma imposição, um costume, um mundo, que impuseram seus caprichos ou sua liberdade (há diferença?). As grandes heroínas que não conseguiram vencer. Simpáticas, claro, mas no final é melhor que morram porque exageraram. Não tiveram o bom senso de Jane Austen, a negociação, não permaneceram dentro do limite do permitido.

Apenas Anora vence, fazendo-nos rir e nos comover, saindo de cena com dignidade e o dedo médio levantado. A atriz que a interpreta, Mikey Madison, venceu o Oscar que muitos esperavam que fosse para Demi Moore (maravilhosa, dilacerante, desesperada Elisabeth Sparkle, traída, vingativa, nua, com partes do corpo que enrugam como a madrasta da Branca de Neve quando se transforma em bruxa. Em vez do caldeirão para envenenar a maçã, uma enorme seringa que ainda me faz arrepiar).

Nos filmes mais comentados no Oscar, aqueles que venceram muitos prêmios ou que não ganharam o que realmente mereciam, nos filmes que mais nos abalaram, nos chocaram, que quebraram o mar congelado dentro de nós, ainda há várias Madame Bovary: até mesmo na forma de um temível e sanguinário narcotraficante do cartel mexicano que quer desaparecer do mundo e se tornar uma mulher porque sempre se sentiu assim, e acredita ser possível que sua vida, daqui em diante (com uma grande fuga, muitas cirurgias e muito dinheiro), seja doce como o mel, longe da violência.

Chega de matar, chega de negócios sujos, chega de homens maus, peludos, armados, horrendos. Emilia Pérez (também título do filme de Jacques Audiard) veste sedas leves, tem uma voz quente, usa seu dinheiro para fazer o bem, busca relações profundas, ama loucamente seus sobrinhos – isto é, os filhos que teve em sua vida anterior – e tenta redimir o mundo, ou pelo menos o México e a si mesma. Faz o melhor que pode, de um jeito quase açucarado, ingênuo, mas ainda assim arrogante (quer tudo), até que sua vida anterior lhe cobra o preço e lembra quem ela é. Até que sua vida anterior lhe diz: está na hora de se jogar sob o trem, Anna Karenina dos meus sapatos.

(E depois, na vida real, a atriz que a interpreta, Karla Sofía Gascón, foi eliminada do mundo dos «bons» por declarações racistas que – na verdade – escreveu em sua vida anterior. Assim, até para ela, a primeira mulher trans indicada ao Oscar, veio a conta a pagar).

Como acontece com Anora, como acontece com Elizabeth Sparkle e com Sue em The Substance: vi tudo isso da primeira fila, bem debaixo da tela, e apesar do sangue, das feridas, da monstruosidade, do horror que gruda na pele, apesar dos corpos que desabam ruidosamente no chão do banheiro, apesar do choque da cena em que Demi Moore devora o frango com as mãos enquanto assiste na TV aquela garota linda, jovem e cruel – a outra metade de sua consciência, a versão melhor de si mesma – e a odeia até a morte, portanto odeia a si mesma até a morte, pensei mais uma vez que essa é a maldição dos romances do século XIX: se você sair das regras, garota, não há salvação.

O maior desejo de Anora é comovente: ela quer passar a lua de mel na Disney World com o marido que se casou em Las Vegas, um jovem herdeiro russo muito bonito e completamente fora da realidade, para ver o castelo da Cinderela. Seu maior sonho é uma pequena versão distorcida de Pretty Woman, mas com um toque extra de cocaína, PlayStation, sexo alucinante, dinheiro aos montes, café da manhã na cama, drinks na piscina e um casaco de zibelina. Enquanto isso, em casa, na periferia, sua irmã assiste à TV furiosa.

Mas Anora tem o toque mágico: carrega consigo a força da juventude, a energia de uma terceira geração desafiadora, capaz de contar dinheiro e medir poder. Ninguém a intimida, ninguém a detém, ninguém a assusta. Ela esperneia e grita, morde os seguranças para defender o que lhe pertence: a sua Cinderela. Ela conquistou essa história com sexo, com diversão, sem jamais se envergonhar. Conquistou porque, apesar de tudo, acredita nela. É uma rebelde sem nunca ter planejado ser uma. Nenhum homem a abala; a única pessoa que a intimida, ainda que por pouco tempo, é a mãe russa de seu noivo—um garoto incapaz e frágil. Anora tenta conquistá-la, agradá-la, até se esforça para falar russo. Mas quando percebe que a batalha está perdida, manda a velha para o inferno, junto com o filho avoado.

Agora, é Anora a nova heroína – uma que não quer ser heroína de nada, que nunca leu Anna Karenina nem Madame Bovary, é claro que não, e talvez por isso ninguém possa impor a ela um destino trágico. Mattia Carzaniga escreveu que os Oscars para Anora foram «a vitória über indie, inesperada, de um filme tão surpreendente quanto sua protagonista, um filme em que ela não termina sob os trilhos do trem, nem envenenada, nem morrendo no porta-malas de um carro: viva!».

 

Castelo da Cinderela. Disney, EUA.

 

As outras, infelizmente, acabam sob os trilhos. Estão a um passo da redenção, da vingança, da inversão das regras – mas no final, uma por uma, acabam aceitando-as. Demi Moore aceita ser desintegrada pela ambição de sua versão mais jovem, Emilia Pérez aceita agir novamente como um narcotraficante qualquer, e desta vez sucumbe.

Ela queria ser doce como o mel, queria o luxo de rejeitar a violência, já que tinha dinheiro suficiente para substituí-la, mas a dominação ainda fazia parte dela, era algo visceral, e a dominação sempre se volta contra você.

Ainda não as perdoamos, essas mulheres. Ainda precisamos assistir ao salto no abismo de Thelma e Louise (Pretty Woman é de 1990, Thelma & Louise, de 1991).

Não estou dizendo que, depois de trinta e cinco anos, quero sentar no cinema esperando um final feliz a qualquer custo. E se penso em Pretty Woman, nem sei dizer se, na vida adulta, aquilo é um final feliz ou se é sempre Cinderela, «ele que salva ela, ela que salva ele», e assim por diante. Ou se é aquela coisa que Nora Ephron dizia: «Não era esperado que nós, mulheres, tivéssemos um futuro. Era esperado que nós nos casássemos com ele».

Mas a supremacia de Anna Karenina ainda me parece inabalável.

Disseram-me, aliás, que um bom número de pessoas progressistas e reflexivas quis sair correndo do cinema, escandalizadas, depois dos primeiros vinte minutos de Anora, e então entendi que isso só pode ser nostalgia de Tolstói.

Até ontem à noite, quando fui assistir A Real Pain (dirigido e estrelado por Jesse Eisenberg, com Kieran Culkin ganhando o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante), eu pensava que não há nada mais interessante do que as vidas das mulheres – essa busca incessante por redenção, essa vontade, essa tentativa quase alcançada, mas perdida. Essa vida anterior que sempre volta para cobrar o preço. Essa relação difícil com o tempo que passa, com o poder que se perde, com a tentação de Anna Karenina, tão difícil de arrancar da cabeça. Essa relação complicada com o olhar masculino que nos acompanha ao longo de toda a vida (maravilhosa e repulsiva a cena de The Substance em que Demi Moore, recém-chegada aos cinquenta anos, é demitida durante um almoço por um produtor, interpretado por Dennis Quaid, que, enquanto diz que ela está velha demais para continuar existindo, descasca e devora camarões de forma repugnante).

Emilia Pérez se torna mulher, mas não consegue se libertar desse olhar.

Anora, maravilhosa, pode simplesmente ignorá-lo.

Então, sentei-me na sala de cinema, mais uma vez, disposta a mudar de ideia sobre tudo.

E os dois primos de A Real Pain me levaram para a Polônia – mas, acima de tudo, para dentro de uma amizade, um amor, uma dor, uma irmandade, uma fragilidade insuportável e dois pequenos leitos de hotel em Varsóvia.

Em nome da lembrança de uma avó polonesa que, certa noite, deu um tapa no neto mais complicado e carismático, porque ele chegou quinze minutos atrasado para o jantar.

«Droga, foi um dos momentos mais bonitos da minha vida», ele diz. «Ela realmente se importava comigo».

E então, mais uma vez, mudei de ideia sobre tudo. E entendi que até os homens são Anna Karenina.