Ele me molestou, eu não falei. Uma história Por Berta Isla
The Nightmare (O Pesadelo), 1781. Pintura de Johann Heinrich Füssli.
A história que quero contar tem um começo horrível e um final feliz. O começo horrível é que, aos 12 anos, fui molestada pelo pai daquela que na época era minha melhor amiga, um senhor de mais de sessenta anos, praticamente da família, um homem que me criou e em quem eu confiava cegamente. O final feliz está no fato de que o abuso não foi além, não se transformou em estupro, e isso foi apenas fruto do acaso e da sorte, de modo que hoje, quase aos quarenta anos, com um marido e um filho a caminho, posso dizer que estou bem, que não tenho feridas abertas. Nenhum trauma habita em mim, nenhuma ruptura irreparável, não tenho medo do sexo nem jamais tive medo do outro sexo.
Não sinto ódio, nem rancor, nem raiva daquele homem em quem, quando criança, eu confiava cegamente. Nunca senti esses sentimentos, para dizer a verdade, eles não fazem parte do meu equipamento, não possuo as enzimas necessárias. Não senti ódio, rancor nem raiva sequer logo depois do que aconteceu, pelo que me lembro, nem mesmo assim que fechei atrás de mim a porta do meu quarto. Apenas, muitos anos depois, um sentimento de profunda pena diante de uma miséria humana tão vertiginosa. Apenas, muitos anos depois, ainda a pergunta que me acompanha desde então: será que aquele homem de mais de sessenta anos, em quem eu confiava cegamente quando criança, alguma vez sentiu vergonha, alguma vez se arrependeu? Será que, quando depois morreu num hospital da periferia de Roma, ao entregar sua alma a Deus, ao se confessar ou, simplesmente, no contexto de um balanço mais laico dos próprios atos, será que, não digo como último pensamento, mas pelo menos em algum momento, aquele homem se lembrou também da vez em que decidiu desviar o carro para dentro do bosque, enquanto levava para casa uma menina de doze anos, criada em sua casa, que confiava cegamente nele.
Era noite, naquela noite, talvez umas dez da noite, o homem de mais de sessenta anos me levava para casa depois de um dos tantos jantares compartilhados à sua mesa, com seus filhos e sua mulher, uma casa que para mim também era um pouco a minha casa, e meu cérebro certamente manipulou as lembranças com o passar do tempo, acrescentando detalhes e apagando outros, e por isso me lembro de que naquela noite, enquanto o homem me levava para casa, havia neblina, muita neblina, mas talvez isso seja um acréscimo posterior e cinematográfico da minha mente, porque era certamente primavera, e disso, ao contrário, me lembro bem, disso tenho certeza, era primavera e eu usava uma sainha sem meia-calça, disso me lembro bem e tenho certeza porque foi entre minhas coxas nuas que aquele senhor de mais de sessenta anos, que todos diziam ter sido bonito na juventude, e eu não sei, mas talvez seja verdade, embora carregue comigo a vingativa e pouco lisonjeira imagem dele andando pela casa de roupão e com uma redinha na cabeça, enfim, foi entre minhas coxas nuas que aquele senhor enfiou imediatamente as mãos assim que desligou o motor do carro no meio dos arbustos, provocando em mim vergonha e repugnância, numa busca espasmódica e violenta que nem sequer compreendi de imediato, que me pareceu antinatural e sem sentido.
Disso me lembro bem, tenho certeza, era uma noite de primavera, eu usava uma sainha curta e empurrar, morder, gritar não adiantou muito, não adiantou nada. Nem chorar adiantou. Nem bater a cabeça contra o vidro, como sabem, para sua desgraça, as mulheres menos afortunadas do que eu, não há força física capaz de conter um homem em fúria, nada que eu fizesse com meu corpo para me opor ao dele teria produzido qualquer resultado, e de fato não produziu. Aquela luta desgrenhada que eu havia iniciado não servia para nada, porque o homem, mesmo com seus sessenta anos, com uma única mão prendia as minhas, as duas, enquanto com a outra continuava a abrir caminho entre minhas pernas. Disso me lembro bem.
Não tenho vestígio, ao contrário (veja só como funciona o cérebro, como é seletivo, como protege), do rosto dele enquanto todas essas coisas aconteciam em desordem, do tique que tinha no ombro, da mão grande que mantinha presas as minhas duas, disso sim me lembro, mas do rosto, da expressão, se procurava meus olhos, se seus traços estavam deformados pela fúria ou se em algum momento surgia um lampejo de culpa. De tudo isso não tenho lembrança, talvez por constrangimento, talvez pelo nojo, não sei se aos doze anos senti dor pelo que me aconteceu naquela noite, mas talvez tenha sido justamente para me preservar da dor que a imagem daquele rosto foi apagada.
Outra coisa de que me lembro bem, que não foi apagada, é o começo do final feliz, faça o que quiser, eu disse a ele, era evidente que eu não era capaz de impedi-lo, mas depois você também vai ter que me matar, porque, caso contrário, eu teria de contar tudo a todos, contaria tudo à sua filha mais nova, para começar, a filha que ele tivera já em idade madura e que era minha melhor amiga, contaria à mulher dele, aos meus pais, aos vizinhos, eu contaria, arruinaria sua vida, sua reputação, e portanto que tivesse bem em mente que teria de me matar, nesse caso, depois de me estuprar. O começo do final feliz, no fundo, foi compreender, intuir, que aquele homem, por mais horrível que fosse, aquele velho que desviara o carro para dentro do bosque enquanto levava para casa uma menina que confiava cegamente nele, o senhor que colocava uma redinha nos cabelos antes de dormir e que na juventude talvez tivesse sido até bonito, aquele homem era um merda, era um homem doente, aquele homem escondia dentro de si um traço repugnante, mas ao menos, com toda a probabilidade e como depois se confirmou, não era um assassino. O começo do final feliz foi trocar a única mercadoria que eu tinha, isto é, o silêncio gratuito, o segredo, uma vida inteira sem dizer nada, pela retirada dele.
E, por mais absurdo, por mais implausível que possa parecer, o homem de mais de sessenta anos de fato recuou, despertando de repente de seu desligamento da realidade, e depois que o carro foi ligado novamente, depois que lentamente voltamos a andar, chegamos até a frente da minha casa em silêncio, sem nos olhar, um silêncio noturno e angustiado.
Quando me deixou diante da porta de casa, o velho conhecido da família, o pai da minha melhor amiga, rompeu o silêncio para me dizer, laconicamente: como você é boba, eu teria levado você ao Paraíso.
Essa, ao longo dos anos, é a parte mais sólida da minha lembrança daquela noite, o trecho que revejo com maior nitidez, e é esse segmento que, ao longo dos anos, muitas vezes me fez modificar ligeiramente minha pergunta: será que, em algum momento da própria vida, talvez à beira da morte, talvez entregando sua alma a Deus ou no contexto de um balanço mais laico dos próprios atos, aquele homem se sentiu um completo babaca, um pobre babaca, por ter pensado que uma menina de doze anos apreciaria suas atenções e aceitaria sua proposta, que uma menina que em seu horizonte imaginário tinha Nick Carter, o mais loser dos Backstreet Boys (para quem não sabe do que estou falando, sinto muito, mas nem saberia por onde começar), enfim, que essa menina ficaria feliz em se embrenhar no mato com ele, muito contente em fazer amor com um homem de sessenta anos, ainda por cima barrigudo e com uma redinha na cabeça, será que não se sentiu o maior babaca da face da Terra por não ter considerado que precisaria usar a violência para conseguir uma relação sexual com uma criança. Como você é boba, eu teria levado você ao Paraíso. E foi embora, na minha opinião, sempre pensei, no fundo lamentando não ter tido colhões para realmente me matar, como eu gentilmente havia sugerido, porque sabe-se lá quantos problemas eu lhe criaria, para quantas pessoas acabaria contando, quanta dor de cabeça.
E, no entanto, não contei nada. Por muito tempo.
The Forest (A Floresta), 1927-28. Pintura de Max Ernst.
Durante anos, não disse uma palavra a ninguém sobre aquele episódio, retirando silenciosamente minha presença daquela casa que me vira crescer, deixando que todos interpretassem aquela mudança como um capricho do início da adolescência, inventando desculpas, contando mentiras. Passei aquele tempo decompondo minuciosamente, vivisseccionando cada comportamento que eu tivera ao longo dos anos com o homem que me havia criado junto com sua filha: havia dirigido um carro pela primeira vez sentada no colo dele, sobre suas pernas, muitas vezes o abraçara com afeto sincero. Certamente havia circulado por aquela casa, que considerava como se fosse a minha, de pijama e roupão, talvez sem prestar atenção ao meu corpo que mudava de mês em mês, e naquela noite eu usava uma sainha curta, tantas eu havia usado na presença dele. Passei aquele tempo do silêncio prometido, no fundo, condenando aquela parte de mim que intimamente não podia deixar de ter vislumbrado, intuído, o lado obscuro de suas manifestações de afeto, mas que, por medo, por covardia, por receio de perder uma amiga, nunca havia reagido. Mas isso, agora eu sei, agora que tenho quase quarenta anos e estudei behavioural law and economics, é um hindsight bias, ou creeping determinism, a tendência que todos nós temos de perceber os acontecimentos como muito mais previsíveis do que realmente eram depois que já aconteceram. Na época eu era uma criança e não sabia o que era creeping determinism, e então passei o tempo do silêncio prometido procurando na memória todos os momentos, os lampejos, os detalhes a partir dos quais eu poderia e deveria ter entendido e não havia entendido, equiparando não ter entendido a não ter querido trazer à luz uma intuição íntima e vergonhosa.
Naquele tempo de silêncio, despedacei, triturei cada coisa, sem dramas, pelo que me lembro, sem tragédias, mas colocando antes de qualquer outra pessoa, e sobretudo antes do homem que desviara o carro para dentro do bosque, a mim mesma no banco dos réus. Triturei tudo, mas não falei, e mesmo quando falei, muito tempo depois, com minha mãe, fiz isso amenizando e censurando, escondendo os detalhes mais crus, dos quais, pensei, minha mãe não se recuperaria. Não falei por muito tempo e, quando falei, falei apenas em parte. Sobretudo, fiz isso obrigando minha mãe a jurar, estávamos na cama e era inverno, minha mãe usava uma blusa vermelha de gola alta e estava com os cabelos presos, eu chorei muito, ela chorou muito, enfim, entre as lágrimas, depois das lágrimas, falei fazendo-a jurar solenemente que ninguém além de nós duas jamais saberia. Falei com minha mãe, mas arrastando-a para dentro do meu silêncio, entregando-lhe esse duplo fardo, saber e não poder fazer nada. Não falei por muito tempo e, quando falei, falei de maneira reticente.
E, no entanto, meu contexto familiar teria permitido uma sinceridade absoluta: cresci numa família culta e abastada, fundada na confiança e no apoio mútuos. Todos teriam acreditado em mim, todos teriam me ajudado, e eu, uma criança sempre segura do amor dos meus pais, não tinha motivo algum para duvidar disso. Se fui reticente, foi por instinto de proteção, aliás, talvez, pelo que me lembro, aquela tenha sido a primeira vez em que senti o desejo de proteger meu pai e minha mãe, invertendo o paradigma natural. Nas veias do meu pai e do meu irmão corre sangue abruzzês, de Celano, mais especificamente, que tem fama, a meu ver amplamente merecida, de ser o lugar mais briguento do Ocidente. Eu imaginava meu pai, meu pacato papai, indo com um facão até a porta daquele homem, tocando a campainha e fazendo dois carinhos no cachorro que corria ao seu encontro como se fosse um dia qualquer, o rosto do homem se enrijecendo, e meu pai incapaz de resistir à tentação de se lançar sobre ele com um grito animalesco para despedaçá-lo.
Minha mãe, por sua vez, não sairia ilesa da crueza da história em sua versão integral, minha mãe, a mulher de quem, contra a minha vontade, herdei uma acentuada propensão ao sentimento de culpa, jamais teria se perdoado, no fundo, teria considerado aquilo uma desatenção sua. Minha cabeça imaginativa de adolescente antevia essa ordália indistinta de violência, dor, choros e psicofármacos, minha família arruinada para pagar advogados, meu pai e meu irmão na prisão, sem dúvida um cenário de telenovela barata, e talvez eu tenha exagerado, mas, se falei com reticência, foi apenas por isso, por medo do desfecho trágico, para não ferir mortalmente meus pais. E assim aquele velho conhecido não foi punido, não foi obrigado a se tratar e não foi obrigado a pedir desculpas, e por isso talvez a história que conto tenha um final feliz apenas para mim, não para ele, e certamente não para as adolescentes que, sabe-se lá, ainda passaram pela vida dele. Fui eu que me salvei e não falei, sou eu que, às portas dos quarenta anos, não tenho traumas e não sou habitada por ferida alguma, fui eu que troquei o silêncio pela serenidade do meu núcleo familiar.
Talvez seja por isso que tenho vontade de sorrir quando os perspicazes comentaristas atribuem grande relevância ao tempo transcorrido entre os abusos e as denúncias das supostas vítimas, como se fosse possível saber como aquele tempo foi vivido, como se o medo, a vergonha, a indecisão, as mil variáveis, o espanto, o sentimento de culpa, a relutância em se ver no centro da tempestade, a incapacidade de lidar com uma situação inédita e complicada, como se tudo isso não consumisse tempo, como se o tempo não fosse devorado pelo medo.
Por isso tenho vontade de sorrir quando (muitas vezes os mesmos) perspicazes comentaristas viram o olho da câmera para a suposta vítima, tentando arrancar dela alguma responsabilidade pelo ocorrido, nem que seja a ingenuidade, que de repente passa a causar espanto, a ingenuidade que é o traço distintivo, o mais desejável, a ingenuidade das adolescentes, bela, belíssima ingenuidade das adolescentes celebrada pelos poetas, lamentada pelos nostálgicos e por Claudio Baglioni, é preciso ser menos ingênuas, meninas, cabeça no lugar. Mais responsáveis, mais corretas, mais atentas, é isso que queremos dizer às adolescentes e às mulheres que foram, ou dizem ter sido, estupradas, molestadas, agredidas, tomem mais cuidado, meninas, pelo amor de Deus, porque se vocês andarem pelos bosques vão encontrar o lobo. Mas quem estabelece qual é o limite da ingenuidade, não nos é dado saber. Aprender a dirigir no colo de um amigo da família é ingenuidade? Confiar nos colegas de escola é ingenuidade? Tentar ter uma vida afetiva e sexual normal, sair de casa, conhecer pessoas, tentar viver as próprias experiências ou, em alguns casos, confiar no próprio companheiro ou marido, ou não ter condições emocionais ou econômicas de se livrar dele: quando termina a ingenuidade, o não ter a cabeça no lugar, e começa o azar de ter ido parar na situação errada? Talvez seja preciso inventar e introduzir um ingenuômetro, um cuidadômetro, para estabelecer esse limite e atribuir-lhe relevância, enquanto tentamos, antes de mais nada, dar uns puxões de orelha nas supostas vítimas, procurando entender, antes de qualquer outra coisa, se elas se comportaram como deveriam.
O que, afinal, é um híbrido horrível e curioso entre as considerações que minha avó Lina (nascida em 1920) teria feito e uma estranha forma de suposto garantismo, como se garantismo fosse repartir, ainda que em porcentagens desiguais, a responsabilidade pelos fatos entre várias pessoas, como se fosse vasculhar as supostas culpas das vítimas ao lado daquelas dos agressores. Quando, ao contrário, garantismo, entre suas mil nuances e ramificações, significa desejar (e nós o desejamos mais do que qualquer outra coisa) e assegurar que qualquer pessoa que tenha cometido um crime seja submetida a um julgamento justo, e que tenha o direito de se defender em igualdade de condições, o direito de ser considerada inocente até a sentença condenatória. Essa é uma das nobres formas do garantismo penal, certamente não a busca de uma porcentagem de responsabilidade também da pessoa ofendida, que é uma maneira grosseira, obtusa e selvagem (com todo o amor e respeito pela minha avó Lina, nascida em 1920) de conceber o garantismo. E uma maneira vazia de raciocinar, tão vazia quanto os slogans que se colocam na outra margem do raciocínio, «irmã, eu acredito em você» e derivados, porque não se acredita em ninguém por princípio, a menos que seja por amor e vínculo familiar, não se acredita numa acusação pelo simples fato de ela ser reproduzida pelos jornais e repercutida nas redes sociais, ou de ser plausível e funcional a uma batalha.
São duas faces da mesma pobre moeda de um pobre debate, que se acende e se inflama diante dos casos do noticiário e em certos dias do ano em que trocamos nossas fotos de perfil nas redes sociais por rostos sombrios e frases feitas e gastas, basta de violência contra as mulheres, ah, ok, ótima ideia, espera que vou anotar. Tudo isso, me parece, em substituição a uma reflexão séria, profunda, sobre o curto-circuito, cada vez mais forte, sobre o defeito que se instalou na relação entre homem e mulher fora deste mundo dourado em que podemos nos preocupar em reivindicar lugares nos conselhos de administração e romper tetos de vidro, sobre esse paradigma, que muda, com resistências cada vez mais fortes vindas de grupos sociais distintos, de idades diferentes. Felizmente, não cabe a mim ocupar-me dessas reflexões profundas nestas linhas, eu que, aliás, não sou socióloga, nem sequer psicóloga, eu que, para dizer a verdade, talvez já seja hora de confessar, nem jornalista sou. Eu que, no fim das contas, tinha passado por aqui apenas para contar uma história com final feliz.
Por Berta Isla.
