Uma rave sinfônica

Uma rave sinfônica Por Luca Roberto

Dos cantos sagrados à techno: Caterina Barbieri nos conta sobre sua Biennale Musica de Veneza. «Será minha última edição, depois volto a compor».

Vejam quanto nos custa matar. A propaganda israelense em Fauda

Vejam quanto nos custa matar. A propaganda israelense em Fauda Por Francesca Mannocchi

Em sua quinta temporada, a série distribuída pela Netflix é cada vez mais o megafone das políticas do governo israelense.

«Sobre a Ilíada» — Uma conversa com Cristina Guarnieri

«Sobre a Ilíada» — Uma conversa com Cristina Guarnieri Por Michele Silenzi

Rachel Bespaloff, que descobriu no poema da força a força da vulnerabilidade

Feminismo incandescente e diálogo que nunca se cansa. A vida breve e atravessada com cuidado de Carla Lonzi

Feminismo incandescente e diálogo que nunca se cansa. A vida breve ... Por Annalena Benini

O documentário de Francesca Archibugi restitui a vitalidade, as contradições e a intransigência de uma mulher que quis se subtrair à ordem masculina. Um abalo intelectual que, cinquenta anos depois, ainda não deixou de produzir efeitos

Ele me molestou, eu não falei. Uma história

Ele me molestou, eu não falei. Uma história Por Berta Isla

Eu era uma menina de 12 anos e aquele homem era um amigo da família. O rosto apagado da memória, «me mate ou conto tudo», o sentimento de culpa, o tempo passado procurando um porquê. Mas há também um final feliz.

Sveta, Katya e as outras

Sveta, Katya e as outras Por Marta Serafini

As garotas dos soldados

O dia em que, em Manhattan, a história mudou para sempre

O dia em que, em Manhattan, a história mudou para sempre Por Marco Bardazzi

O 11 de Setembro, 25 anos depois: o horror explicado à geração Z. É preciso voltar aos anos 1980 para recompor as peças, que já estavam todas sobre a mesa

Em sintonia com os artistas: sobre In Minor Keys, na Bienal de Veneza

Em sintonia com os artistas: sobre In Minor Keys, na Bienal de Veneza Por Elvan Zabunyan

O início da estadia em Veneza e a visita à exposição In Minor Keys coincidem com o momento em que os meios de comunicação transmitem a chegada trágica a Ceuta de milhares de jovens vindo do Marrocos.

A cicatriz inexistente do woke

A cicatriz inexistente do woke Por Claudia Durastanti

Uma pessoa pode ser esmagada pelo Estado que deveria lhe garantir segurança, mas também pelo jornalismo e pelo mundo acadêmico, que se ocupam da representação da realidade e contribuem para dar a um cidadão a sensação de existir, de ter alguma importância. É preciso vigiar uns tanto quanto os outros.

O doce canto do demônio

O doce canto do demônio Por Francesca D’Aloja

Memória de uma música encantadora, nos limites do suave delírio. Chet Baker, o grande trompetista de jazz, tocou no meu jardim, em Sabaudia. Mas a heroína é apenas uma parte maldita da história

Os americanos e a bomba atômica de Hiroshima. Luzes sobre o horror

Os americanos e a bomba atômica de Hiroshima. Luzes sobre o horror Por Marco Bardazzi

A América sabia pouco sobre a bomba. Só descobriu o que realmente havia acontecido um ano depois, nas bancas, nas páginas de uma edição irrepetível da The New Yorker.

Memórias de Brodsky

Memórias de Brodsky Por Anatoly Naiman

Mesmo entre os russos mais bem informados, pouco mais se sabia, ou se sabe, sobre ele, e os poucos fatos de sua vida foram repisados tantas vezes por tantas pessoas diferentes, inclusive por algumas consideradas próximas a ele, que hoje é quase impossível separá-lo de sua própria lenda.

A esquerda consegue tolerar o dissenso?

A esquerda consegue tolerar o dissenso? Por Entrevista com Jay Lesoleil e Clementine Morrigan. Por Meagan Day.

Os apresentadores de F–king Cancelled dizem em voz alta aquilo que costuma permanecer implícito: uma esquerda que condena o dissenso interno é um beco sem saída para a democracia.

Por trás do antiwokismo, o fixismo social

Por trás do antiwokismo, o fixismo social Por Juliette Speranza

O clima político internacional vem fortalecendo a corrente do «antiwokismo». Esse discurso e essa mitologia antiminoritários pretendem se insurgir contra a loucura destrutiva de um esquerdismo desconstrucionista, de um decolonialismo vitimista e de um individualismo antidemocrático, partindo do pressuposto equivocado de que as minorias colocariam em risco a democracia e o universalismo. A verdadeira ameaça, ao contrário, é o fixismo social.

O último verão de Pollock

O último verão de Pollock Por Marco Bardazzi

Setenta anos atrás morria um gênio infeliz, convencido de que sua revolução havia terminado. Uma despedida violenta como sua vida

Todos invasores ou desesperados: os falsos mitos sobre os migrantes que cegam a política

Todos invasores ou desesperados: os falsos mitos sobre os migrantes... Por Francesca Mannocchi

Oscilamos entre a ameaça a ser repelida e a vítima a ser salva: no meio, permanece invisível a pessoa, que é desumanizada. O movimento não é um acidente do qual devemos nos defender, mas uma das formas pelas quais a história continua a se produzir.

O Irã depois da América

O Irã depois da América Por Vali Nasr, entrevista concedida a Jonathan Shainin

Como o Ocidente interpretou mal Teerã — e o que a República Islâmica fará em seguida

Irmãs desencontradas

Irmãs desencontradas Por Donatella Borghesi

O feminismo vive uma crise, dilacerado por um conflito geracional e político. O diálogo difícil e o amor esquecido. Uma reflexão.

Uma rede de pais em quem confiar
02.04.2025

Uma rede de pais em quem confiar Por Stephanie H. Murray

Foto de Henri Cartier-Bresson, 1951.

 

Se me perguntassem sobre o ponto mais baixo da minha vida como mãe, eu poderia indicar um dia exato. Foi no início de março de 2021. O Reino Unido estava há alguns meses em seu terceiro e mais longo lockdown por causa da COVID. Eu estava morando no país há mais de um ano, mas, tendo chegado apenas alguns meses antes do surto, ainda me sentia uma estranha na cidade. As minhas filhas tinham 2 e 3 anos, e a mais nova estava passando por uma fase de gritos. Eu estava sobrecarregada, deprimida e desesperadamente sozinha. Algo precisava mudar. «Misturar os lares» era, na época, estritamente proibido. Mas, escondida nas diretrizes do lockdown, havia uma cláusula que permitia aos pais formar bolhas com uma outra família para cuidar das crianças. Por isso enviei uma mensagem para um grupo de WhatsApp de pais da região no qual haviam me adicionado, perguntando se alguém tinha interesse em formar uma bolha. Um casal respondeu a minha proposta — e por acaso moravam na esquina. Assim como nós, eles haviam se mudado recentemente dos Estados Unidos e não tinham família ou amigos para oferecer-lhes apoio. E, como nós, tinham duas filhas pequenas. Após uma breve chamada de vídeo, decidimos nos revezar cuidando dos filhos uns dos outros por algumas horas por semana.

Foi, em retrospecto, uma forma ousada de organizar cuidados infantis. Não os conhecíamos bem, nem havíamos conversado sobre o que as meninas fariam ou comeriam enquanto estivessem na casa deles. Com certeza, nenhuma das duas famílias esperava que a outra preparasse atividades especiais, apenas que cuidasse das meninas por algumas horas.

Não pensei que esse pacto do desespero fosse durar além da pandemia. Mas eu estava enganada. Continuamos com a nossa «troca de filhos», como passamos a chamar, por quase três anos. Na verdade, ela cresceu: agora quatro famílias estão envolvidas. Duas noites por semana, uma família cuida de todas as crianças por três horas, dando aos outros pais uma noite de folga. Mesmo fora desses arranjos formais, tornou-se bastante comum cuidarmos dos filhos uns dos outros conforme necessário, em sextas-feiras pontuais ou pernoites aleatórios. Alguns meses atrás, enquanto eu mexia um panelão de macarrão com queijo para seis crianças entre dois e sete anos que corriam ao meu redor, percebi que, quase por acaso, eu havia construído algo parecido com o proverbial «vilarejo» de que os pais modernos tanto sentem falta.

Com o tempo, concluí que o sucesso dessa estrutura descontraída não é coincidência; nosso «vilarejo» prospera não apesar das expectativas risivelmente baixas que temos uns com os outros, mas por causa delas. E isso, por sua vez, esclareceu algo inesperado para mim: a abordagem superprotetora e «intensiva» da criação de filhos, que passou a dominar de forma constante a vida familiar americana e, em certa medida, britânica, é simplesmente incompatível com a construção de um vilarejo.

Você pode querer controlar minuciosamente todos os aspectos da educação dos filhos: comer ou não açúcar, impor um limite de tempo diante das telas, pedir desculpas por ter tirado o brinquedo de outra criança — ou pode ter uma comunidade confiável que ajude a cuidar deles. Mas não pode ter as duas coisas.

Desenvolver a confiança

O termo «criação intensiva» pode fazer pensar em pais obcecados por resultados, que martelam o alfabeto na cabeça de filhos de dois anos ou impõem aulas de violino aos de quatro. Neste caso, uso o termo num sentido mais amplo, para resumir a tendência de muitos pais modernos de atribuir uma importância desmedida a qualquer decisão. Reflete uma visão fortemente determinista da educação das crianças, que deixa aos pais pouco espaço para o erro. E hoje em dia, ela se manifesta em várias formas. Alguns pais são neuróticos quanto a validar as emoções dos filhos ou proteger sua individualidade; outros se fixam em maximizar o potencial profissional deles. Mesmo aqueles que rejeitam uma criação excessivamente focada em desempenho podem se tornar intensos em não pressionar seus filhos, como se incentivar uma criança a tentar jogar futebol fosse, de alguma forma, comprometer seu desenvolvimento emocional.

 

Foto de Henri Cartier-Bresson, 1933.

 

Acredito que criar filhos — e criar bem — seja muito importante. É justo considerar cuidadosamente as necessidades das crianças. Mas, levada ao extremo, a abordagem intensiva pode fechar portas para o apoio da comunidade. Se a agenda semanal do seu filho estiver lotada de atividades, será muito mais difícil para você e para os potenciais moradores do «vilarejo» encontrarem tempo para se ajudarem. (Essa foi, sem dúvida, uma das razões pelas quais era tão fácil coordenar a troca de crianças durante a pandemia — não estávamos correndo para fazer outras coisas.) E, em um sentido mais profundo, exagerar a importância das decisões parentais pressupõe um nível de controle sobre o ambiente de uma criança que é incompatível com a vida em comunidade. Se você quer contar com a sua comunidade, precisa confiar na que você tem à disposição. E não pode esperar exercer o mesmo controle que teria em um acordo de cuidados pago. Quando contrato uma babá, combinamos que sou eu quem dá as regras e que estou pagando para que ela venha à minha casa e replique o meu sistema educativo. Mas não é assim que funciona a reciprocidade de «vilarejo».

Um acordo de «vilarejo» também é, de certa forma, uma troca; nossa troca de crianças certamente envolve um tipo de acordo. Mas a natureza desse acordo é bem diferente. Não estou contratando as famílias ao meu redor para replicarem todos os sistemas da minha casa; estou pedindo que elas acolham meus filhos em suas casas por uma noite, com o entendimento de que farei o mesmo por elas.

Permitir que cada família continue fazendo as coisas do seu jeito torna a situação muito mais tranquila. Um acordo desse tipo, além disso, está mais alinhado com o verdadeiro objetivo de construir um vilarejo: dar vida a uma rede de relações definida por um senso de comunidade. A beleza de criar os filhos em um vilarejo é que, em certo ponto, cuidar dos filhos uns dos outros deixa de ser uma série de favores isolados e passa a fazer parte do dia a dia.

Inevitavelmente, construir um vilarejo significa desenvolver confiança. Isso significa relaxar um pouco, deixar de lado tanto os julgamentos quanto a autoconsciência sobre as diferentes maneiras como as pessoas vivem e cuidam das crianças. As crianças do meu pequeno vilarejo são bastante francas sobre como nossos lares diferem. Elas não hesitam em me dizer que a minha casa é a bagunçada. E já virou uma piada recorrente o fato de que eu praticamente nunca sirvo nada além de macarrão. Meu marido e eu somos exigentes quanto a «por favor» e «obrigado» e basicamente nunca deixamos as crianças assistirem TV. Outras famílias têm suas próprias regras e rituais. Para que tudo isso funcione, eu preciso confiar de que cada casa tem seus próprios sistemas sensatos para lidar com as boas maneiras, conflitos e tempo diante das telas — e que, sejam quais forem esses sistemas, eles não vão «estragar» as minhas filhas.

É claro que eu não deixaria minhas filhas com qualquer pessoa. Confiar nas pessoas não significa nunca estabelecer limites ou nunca pedir que adaptações sejam feitas para uma criança que precise delas. Mas muitas vezes significa aceitar que outras pessoas lidarão com as necessidades do seu filho de maneiras que você não faria. Isso pode ser uma experiência angustiante. Mas também pode ser enriquecedora e reveladora. Entregar seus filhos, afrouxar o controle, pode ajudar a romper os medos que fazem você pensar que precisa controlar tudo — e pode mostrar que seus filhos vão se adaptar e prosperar em uma variedade de contextos. Um vilarejo, afinal, pode oferecer um dos maiores presentes que alguém pode dar aos pais: a tranquilidade de que o caminho para criar crianças saudáveis e equilibradas não é tão estreito quanto se imagina.