Uma entrevista com Paolo Giordano sobre «Tasmânia» Por Paula Jacob
Correspondente de guerra nos escombros de Hiroshima, 8 de setembro de 1945
«As ondas eram leves, apenas esboçadas.» Com essa frase, logo na página 23, Paolo Giordano me conquistou. Tem um movimento nas palavras, uma sensibilidade em dizer sobre a quebra d'água singela, esmiuçada como quem domina não só o ato da escrita, mas o da observação. É assim que Tasmânia segue, pelas suas mais de 200 páginas, entre paisagens e personagens que se deslocam emocional e fisicamente em um mundo destroçado pela própria humanidade.
O italiano, PhD em física, funde uma visão extremamente científica da vida com a poesia da literatura. Seu protagonista, que também tem essa formação interdisciplinar, portanto, nos guia em pensamentos que vão desde os efeitos das bombas atômicas de 1945 até um dia quente no litoral da Itália com a mesma precisão de palavras bonitas – vezes duras, vezes contemplativas. Tasmânia é um romance para ler com a presença do corpo. E Paolo comprova a minha percepção na entrevista a seguir:
Apesar de não ser da física (nem das exatas), sinto uma conexão profunda com o protagonista de Tasmânia pela poesia atravessar a lógica de seu pensamento, desconfigurando um pouco as probabilidades matemáticas da vida. Você sendo um físico que se tornou um escritor, como aprendeu a lidar com essas diferenças entre os ofícios?
Não me considero mais físico, abandonei a física há cerca de 15 anos, após obter meu doutorado. Mas ainda mantenho muitas conexões com a ciência no geral. Por exemplo, sou diretor de um festival em Trieste, onde são apresentados livros científicos. Para mim, a ciência é a principal fonte de novas ideias, perspectivas, ameaças e também possíveis soluções. Estou cada vez mais interessado nos territórios intermediários. Nas interseções. E poetizar a ciência é de extrema importância para qualquer futuro que enfrentemos.
O romance não segue uma lógica tão cartesiana de estrutura literária, como se fossem fragmentos de memória e pensamentos que fazem sentido juntos por terem uma voz narrativa. Isso sempre foi a sua intenção ou o livro foi se desenrolando dessa forma durante o processo?
Foi a minha intenção, então deixei que se desenrolasse dessa forma. Gosto cada vez mais de navegar na escuridão enquanto escrevo. Para mim, essa é a única exploração verdadeira. Além disso, isso segue a ideia de que — especialmente após a pandemia — estamos vivendo em um mundo de ruínas. É por isso que descrevo Nagasaki no dia seguinte. As direções comuns se perderam, o senso de linearidade e hierarquia se perdeu. Só podemos nos mover, um pouco aleatoriamente, entre os escombros. Eu queria que minha escrita refletisse esse movimento. É fácil dizer, mas muito difícil de conseguir. A estrutura é uma forma de controlar as coisas, e tentei ao máximo abandoná-la.
A publicação no Brasil é recente, portanto não posso deixar de pensar sobre o filme «Oppenheimer» versus as informações e constatações que aparecem sobre bombas atômicas na sua história. Pensando nesse conteúdo específico, o que você sente com essa história ganhando tanto destaque e prêmios em cima de algo tão sombrio e complexo?
Existem tantas analogias entre o nosso tempo e o início da era atômica. Novas ameaças vindas da tecnologia (pense na internet e nas redes sociais, as muitas formas como estão sendo militarizadas), cenários de devastação em massa (crises climáticas, pandemia, as guerras em andamento). A ideia do Apocalipse está quase em toda parte. Tanto que, em algum momento, comecei a achá-la enfadonha, previsível. Eu queria provocar essa ideia. É sobre isso que Tasmânia trata: como todos nós continuamos falando sobre o fim do mundo. Bem, então vamos fingir que o fim do mundo já aconteceu: o que fazemos em seguida? Acho que ainda fazemos as coisas do nosso cotidiano. Ainda temos que lidar com nossos amantes, família, empregadores etc. E é isso que nos manterá acordados à noite. O título da primeira seção, «Em Caso de um Apocalipse», vem dessa ideia. O romance inteiro é de certa forma engraçado. Mas também houve um momento em nosso passado recente em que as pessoas realmente testemunharam um «fim do mundo» local, e isso aconteceu precisamente em agosto de 1945, em Hiroshima e Nagasaki. Talvez possamos aprender muito mais com a experiência deles, aprender o que é realmente sobreviver, o que é reconstruir.
No final desse capítulo, você também cita a Marie Curie Skłodowska e a sua morte acreditando nos bons fins de suas descobertas. Acha que os objetivos das mulheres na ciência são opostos aos dos homens? Num sentido de ego e reconhecimento acima de tudo e todos?
Acho que historicamente tivemos uma ciência dominada por homens, isso é fato. E que talvez houvesse alternativas, outras perspectivas e abordagens se as mulheres tivessem tido mais acesso a ela. Tenho lido e estudado muito Rachel Carson nos últimos anos. Ela é um ótimo exemplo de uma abordagem diferente à ciência durante o tempo atômico.
Rachel Louise Carson (1907-1964). Smithsonian Magazine
Outro ponto bastante atual da narrativa é a questão da ansiedade climática, que, inclusive, tem deixado muita gente pensativa a respeito de ter ou não filhos, por exemplo. Você é mais otimista ou pessimista em relação aos efeitos da crise climática na sociedade?
Não acho que otimismo e pessimismo sejam a forma correta de abordar a mudança climática. A mudança climática está acontecendo. Estamos profundamente imersos nela. Precisamos nos adaptar de várias maneiras. O principal desafio, e talvez o mais difícil, é nos adaptarmos psicologicamente à ideia de viver em um tempo de eventos climáticos extremos, de menor previsibilidade. Isso também é fascinante, eu acho.
Há também uma discussão sobre terrorismo, Trump, negacionismo científico. Vivendo em um país que passou pelo governo de Jair Bolsonaro, não posso deixar de perguntar: o que você acha que vai acontecer nas eleições dos Estados Unidos desta vez?
Acabei de voltar da Convenção Democrata em Chicago, estive lá cobrindo para um jornal italiano. Havia uma energia especial no United Center. Kamala Harris deu aos democratas algo em que se segurar. Será o suficiente? Realmente não sei. Ninguém sabe. Somos uma sociedade muito dividida, isso é a única coisa que temos certeza – e você viu isso acontecer no Brasil. Na verdade, não estamos simplesmente divididos; acabamos vivendo em realidades diferentes. Vemos realidades diferentes, através de lentes que distorcem tudo. Essa é uma doença profunda da democracia hoje. É como se a democracia ainda não tivesse construído anticorpos para as novas tecnologias que estão atacando seu núcleo. Mas ainda não temos uma opção melhor que possa se encaixar em nossos ideais.
Tenho visto muitas pessoas cansadas, com burnout, sem perspectivas de qualidade de vida ou de trabalho. O seu livro também me fez refletir sobre essa sensação iminente de pânico que fingimos, enquanto sociedade, não estar acontecendo de fato. Você acha que vamos todos enlouquecer por conta do jeito que o sistema capitalista etc insiste em operar, mesmo com tantos indícios de fracasso?
Em resumo? Sim, acredito que sim :-) Mas também acredito que ainda não estamos além da esperança. Escrever romances é em si uma prova dessa esperança. Se eu não tivesse fé no futuro e em nossa possibilidade de adaptação, não passaria anos tentando misturar todos esses sentimentos impalpáveis em uma história.
